Litteratura - Legatus - Fides

Pouco eu sabia sobre Ariano Suassuna, mas neste domingo assisti uma entrevista, de 2007, na qual ele foi questionado sobre a morte. Pergunta esta, que ele respondeu com o primor de um poeta: 'Literatura (litteratura) é uma forma de protestar contra a morte'.

Poucos dias antes de Ariano Suassuna morrer, a cidade de Campinas perdeu um de seus mais consagrados poetas: Rubem Alves. Eu o conheci já com cabelos brancos, mas ainda jovem e forte, em um lançamento de uma série de livros infantis. Ele foi um dos responsáveis pelo meu fascínio por livros e literatura. Assim que soube de sua morte, confesso que não fiquei tão triste, pois um autor como Rubem Alves protesta contra morte por muitas décadas e até séculos. Autores como Rubem e Ariano tem o poder de causar fascínio mesmo após a morte. Eles continuam ensinando, editando e transformando mentes, por tempo indeterminado.

Eles deixam algo de valor para benefício de outras pessoas. Eles deixam seu legado (legatus). Uma contribuição permanente e possível de ser construída por seres de vidas tão curtas como nós.

Pensando neste tema e nestes dois autores, me lembrei que no meio cristão evangélico, existe um falso dilema ou uma falsa dicotomia, entre a teoria e a prática da vida cristã. Aqueles que escrevem e ensinam sobre fé (Fides) e espiritualidade cristã, são muitas vezes, tachados de teóricos que só sabem falar, mas não praticam as boas obras. Digo, falsa dicotomia, pois escrever e ensinar a fé cristã é uma das práticas(obras) mais importantes, realizadas na história da fé cristã. A própria Bíblia, a Palavra de Deus, foi construída graças a esta prática solitária de muitos autores, inspirados por Deus.

Escrever sobre a fé cristã é, em si, um ato de fé. Nesta escrita está contida a crença de que estas palavras alcançarão e transformarão mentes alheias e desconhecidas, com a poderosa mensagem do Evangelho de Cristo. Mais ainda, está contida nesta escrita, a crença de que estas pueris e falhas palavras, serão usadas pelo Santo Espírito de Deus para propagar o Reino de Deus. Sim! Escrever sobre a fé cristã é uma prática de fé. É a ação de construir um legado, sobre o que nós, cristãos, consideramos O Caminho, a Verdade e a Vida: Cristo Jesus, o verbo encarnado.


“... eu lhes escrevi porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio.” 1 João 2:13a

Agridoce

Meu filho caçula, Vitor, tem tido dificuldades para dormir. Mais uma daquelas muitas mudanças de fases das crianças. Numa destas noites, eu estava deitado ao lado dele, quando ele pediu que eu segurasse sua mão. É muito prazeroso saber que nossos filhos gostam da nossa presença, que gostam do nosso contato físico e emocional. Porém, eu disse não para o seu pedido. Disse que estava ao seu lado, mas que ele precisava conseguir dormir sozinho novamente. Devo confessar que me senti um pouco maldoso por não estender minha mão, mas também havia uma sensação de; “estou fazendo a coisa certa”. Afinal, eu já estava ao seu lado. Senti que mais do que isso, já seria mimo demais.

Tenho me deparado com este sentir “agridoce” em muitas áreas da minha vida: educação dos filhos, casamento, trabalho, amizades e etc. Uma mistura de azedo com doce. Um desagradar, agradando. Um ajudar, sendo chato. Uma felicidade tímida, com uma pitada de tristeza moderada. Tenho aprendido, com isso, a encontrar prazeres onde normalmente não buscamos. Como sentir gosto em pagar uma conta de luz, afinal, é pagando ela que se tem acesso a muitos outros recursos. Sentir prazer, não só em conquistar mais um cliente, mas também em prestar um bom serviço, pois assim se mantém o cliente por mais tempo. Sentir prazer em privar os filhos de algumas regalias, pois é assim que se amadurece um coração.

Um paladar infantil sente prazer em gostos simples, já um paladar amadurecido, sente prazer nos sabores mais exóticos. Um ouvido mais maduro, sente prazer em notas dissonantes. Um coração mais maduro vai aprendendo a sentir outros prazeres que misturam aceitação com aprendizado e satisfação com privação. Prazeres agridoces. Prazeres maduros.

Um coração mais maduro, por sua vez, entende um Deus que não é um “Gênio da Lâmpada” pronto para satisfazer nossos desejos. Mas, O Pai que nos constrange em amor e implanta em nós sua Santa Vontade. O Deus que mesmo sendo misericordioso e gracioso, não é leniente e permissivo com nossos erros e desvios de caráter. O Pai que nos ama muito, mas que não negocia com nossos pecados. O Deus que nos aceita, nos livra do apedrejamento, porém, se coloca a nossa frente e nos diz: "Vai e não peques mais."
Um Pai agridoce.

Assim, como diz o Espírito Santo: "Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração, como na rebelião, durante o tempo de provação no deserto, onde os seus antepassados me tentaram, pondo-me à prova, apesar de, durante quarenta anos, terem visto o que eu fiz.
Hebreus 3:7-9

Meus 36 anos!

por Jean Marcel - Blog Oqéisso

"É triste a noite sem conversa.
Os dias são lentos sem café
Viver é impossível sem o Mestre
A cabeça não aguenta sem imaginar

A alma não existe sem acordes
Os neurônios não funcionam sem letras pra juntar
A vida não anda sem moleques
O mundo não se move sem a gente perguntar

As mãos não se aquietam sem um lápis
É impossível sentir e não se machucar
Aprender não existe sem o erro
Crescer é impossível sem se transformar

Essa é a lida de quem sussurra
Histórias próprias ou alheias
Pra quem acordar é uma aventura
E viver é ter muito mais que apenas sangue nas veias."

Discordando de Coélet

Kohelet, ou Coélet significa preletor, ou pregador. É o nome hebraico do livro de Eclesiastes, um dos livros poéticos presentes na Bíblia. Alguns atribuem sua autoria ao Rei Salomão, outros discordam disso. O que todos concordam é que foi escrito por um grande sábio da época.

Sempre gostei muito deste livro, por seu cru-realismo sobre a vida. Em suas linhas, o autor desmonta as nossas grandes ilusões sobre a vida, para apresentar uma realidade sóbria e lúcida, onde o temor a Deus deve ser nosso principal objetivo.

Um dos textos que sempre me intrigou neste livro, é este:
É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!
- Eclesiastes 7:2

Esse texto é intrigante porque, para nós, tripulantes desta pós-modernidade hedonista, que corre em busca da felicidade a qualquer custo, este ensino é totalmente contraditório. Parece até o texto de um azarado na vida que, por inveja da felicidade alheia, escreve um texto, dizendo que o bom mesmo é estar triste e não viver as alegrias da vida.

Porém, o objetivo do autor de Eclesiastes, seja ele quem tenha sido, não foi desdenhar das alegrias da vida, mas ensinar que os momentos de grande tristeza, são os períodos da jornada que mais nos ensinam. Talvez a mesma lei natural que forja o aço, opere em nossas mentes e almas, nos tornando mais maduros, ao passar por estes vales sombrios da vida.

Há alguns anos, perdi dois sobrinhos, o Ian, durante o parto da minha irmã e a Maria Eduarda, filha da minha cunhada, Nayane. Enterrar pessoas idosas é algo triste, mas aceitável. Enterrar crianças é algo que está além das fronteiras das descrições. Coube a mim a dura tarefa de contar à minha cunhada Nayane, que sua filha havia morrido no parto. Envelheci uns vinte anos naqueles poucos minutos. Foi um daqueles momentos que a gente só se mantém em pé, pela graça de Deus. Depois de algum tempo, fiquei sabendo que minha cunhada precisou de tratamento para me encarar de novo, sem nenhum ressentimento.

Mas, o que aprendemos com o sofrimento, grande Coélet?

Aprendemos que a nossa vida e a das pessoas que amamos, são efêmeras demais. Aprendemos que as pessoas são importantes e que amá-las é a única coisa importante na vida. Em resumo, aprendemos a amar. O aço é forjado para se fortalecer e cortar. Já o ser-humano deve ser forjado para se fortalecer e amar. Este continua sendo o principal mandamento. A regra de ouro. O objetivo final. O supra-sumo do Evangelho de Cristo.

Mas hoje...
Murilo - 05/06/14

Hoje, eu discordo de você, grande Coélet?
Hoje, não acho melhor a casa onde há luto.
Hoje, festejo o nascimento do meu sobrinho Murilo!
Hoje, estou na casa onde há festa!
Hoje, é dia de celebrar!
Hoje, é tempo de amar!
Hoje, seja bem-vindo, pequeno Murilo!




Texto dedicado à família: Felipe, Nayane, Maria Eduarda e Murilo.

Ordem e Regresso

Fique tranquilo! Não é mais um texto sobre a situação política do Brasil. Infelizmente não tenho aptidão para falar sobre este tema, diante do cenário atual. Política é um tema “macro”, e todos os assuntos deste tipo, afetam indiretamente nossas vidas. Porém, este texto é sobre um tema “micro”, sobre vida pessoal que afeta o macro.

Desde dezembro do ano passado, voltei a praticar, semanalmente, uma de minhas paixões: a natação. Consegui encaixar esta prática prazerosa e saudável, com muito esforço mental, no horário de almoço de um dos dias úteis da semana. O interessante é que sempre que estou me dirigindo ao clube, parte de minha mente, talvez a mais responsável, fica repetindo insistentemente a seguinte frase: - Isso é loucura! Você está com muito serviço, alguns atrasados, e está indo nadar? É um irresponsável mesmo!

Eu adoro nadar, mas o preparo, antes e depois do nado, é um transtorno. Touca, óculos, protetor de ouvidos, sunga, cadeado do armário, carteirinha do clube, banho e etc. Além de toda esta lista, tenho esta presença incômoda e constante, me julgando e tornando esta prática adorável, um verdadeiro tormento.

Foi num destes dias que resolvi responder a esta voz julgadora: – Sim, talvez eu seja irresponsável. Talvez eu devesse estar trabalhando neste momento, mas vou te falar, a vida é curta demais para eu não poder separar duas horas da minha semana, para algo que eu amo e me faz tão bem. Com certeza essa prática semanal não me deixará mais rico, mas ela me deixará mais pleno de significado.

Por alguns minutos, aquela voz chata e responsável me abandonou. Pude então nadar tranquilo, curtindo cada braçada, sem culpa ou arrependimento.

Um dos ensinos de Jesus Cristo é que não devemos ajuntar dinheiro e bens, onde a ferrugem consome e onde os ladrões roubam (Mateus 6.19). Apesar deste ensino claro, a maioria de nós, cristãos, continuamos dedicando todo tempo e esforço dos nossos poucos dias neste empreendimento. Pelo progresso pessoal (micro), podemos dedicar todas as horas e toda energia necessária, desde que haja lucro. Pelo progresso do país (macro) podemos dedicar todo esforço, mesmo que haja toda sorte de injustiça social.

Vendo a situação do macro e do micro, do Estado e das famílias, sinto e creio que já passamos do momento de regressar. Manter a ordem, mas abandonar a necessidade de progredir, de avançar, de acumular e de exibir o conquistado. Passamos da hora de ficar mais com a família, de conversar na mesa do café, de dar mais risadas, à toa, com os amigos. O aniversário no quintal de casa, um futebol com os amigos, um jogo de tabuleiro na mesa da sala, brincar de luta na cama com os filhos e todas essas coisas que nos fazem felizes, mas que só teremos direito de usufruir quando ficarmos ricos.

Passamos da hora de dizer: Está bom como está!
Agora vamos fazer um pouco daquilo que nos faz humanos.
Passamos da hora de regredir, no micro e no macro.

Mas Deus lhe disse:  
Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?
Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus.
Lucas 12:20-21

O amor do Filho

Por Jucinei Pinheiro

Às vésperas de mais um Dia das Mães, tenho refletido sobre um tema que está na minha cabeça desde o dia em que eu, meu marido e meus filhos, fomos ao cinema assistir ao filme - O Filho de Deus, no feriado da Páscoa.

Uma das cenas que me chamou a atenção foi aquela na qual Maria acompanha Jesus, seu filho, passando por todo aquele sofrimento até a cruz. Me coloquei no lugar dela, como mãe, vendo meu próprio filho, gerado no meu ventre, criado, educado com todo zelo, agora passando por tudo aquilo injustamente. Porém, o que me surpreendeu mais nesta cena, foi ver Jesus olhar pra Maria, como filho, e ver sua mãe chorando, sem poder descer daquela Cruz, para a consolar.  Não por falta de poder, mas por respeito à sua missão, ao seu propósito.

No dia das Mães, sempre lembramos do amor incondicional da mãe pelo seu filho. Vários comerciais mostram características de uma mãe rainha, zelosa, carinhosa... A mãe que faria tudo pelo seu filho, até mesmo dar sua própria vida pelos filhos. Que amor é esse?  Incondicional, louco, inexplicável e sem sentido pra quem não é mãe. Porém, neste ponto chego a pergunta na qual tenho refletido: Qual filho daria sua própria vida pela sua mãe?

Um filho dando sua própria vida por sua mãe!

E não só por essa mãe, mas por todas as mães, filhos, homens, mulheres, sejam eles ricos ou pobres, limpos ou sujos, todos pecadores, não merecedores deste favor. Que amor é esse? Incondicional, louco, inexplicável e sem sentido pra quem ainda não foi alcançado pela Graça de Deus.

Centenas de anos antes de sua vinda, o profeta Isaías fez uma linda descrição deste filho que morreria por sua mãe e por toda humanidade:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. (Isaías 9:6)

O Filho dos filhos, o Filho de Deus, redimiu sua própria mãe, redimiu todas nós, mães, que fomos alcançadas por seu amor.

Feliz dia das mães!