Vôo 1907 versus Deus

“Ocorre que uma criança de bom temperamento está morrendo de tumor cerebral, uma feliz jovem esposa vê o seu marido e filhos serem mortos diante de seus olhos por um motorista embriagado; ...Por quê? A menção de Deus – da vontade de Deus – não ajuda nem um pouco. Como poderia um Deus bom, um Deus amoroso, fazer isso? Como ele poderia até mesmo deixar isso acontecer? E nenhuma resposta vem das estrelas indiferentes.”
Peter Kreeft

Sexta à noite fomos juntos, eu, Ju, Davi e Vitor, buscar uma pizza pertinho de casa. O cheiro estava ótimo, fizemos o pedido e ficamos sentados esperando nossa redondinha enquanto numa pequena televisão o famoso Jornal Nacional corria solto.

Nada de mais, até que um homem ao meu lado apontou para a TV dizendo que perdeu um amigo de infância na queda do avião da GOL. Surpreendido atentei para a reportagem que mostrava as primeiras vítimas em pequenas caixas de exopor repletas de flores por cima e familiares chorando ao redor. 154 pessoas mortas, o número ecoou na minha cabeça. Calculei que se cada vítima tivesse em média apenas 30 pessoas íntimas no seu círculo de convivência, entre parentes e amigos, são em torno de 4620 pessoas sofrendo arrasadas. 4620 pessoas perguntando às estrelas: Por que?

Longe de mim, mesmo como cristão, querer dar qualquer tipo de explicação teológica para o fato. Longe de mim, como cidadão, especular quem são os culpados, quem deveria pagar por isso. Longe de mim, enfim, qualquer racionalização barata que não confortará ninguém. Me veio a mente apenas a recomendação sábia do Apóstolo Paulo: “Chorai com os que choram...”.

Lembrei também que já sofri o suficiente pra levantar os olhos aos céus e indagar: Por que? Por que ele? Por que ela? Por que eu?

Se tivesse a oportunidade de falar aos 4600 e poucos entes e amigos das vítimas do vôo 1907, arriscaria dizer que ainda creio em um Deus amoroso e bondoso. Ainda creio neste Deus que como um sábio pai, cria e educa seus filhos mantendo-os sempre livres para escolher seus próprios caminhos. Somos livres para colocarmos nossas mochilas nas costas e viver nossas vidas, conquistar nossos objetivos, realizar nossos sonhos e fazer nossas guerras. Somos livres para construir nossos carros, motos, casas, prédios, trens, aviões e etc. Somos livres para andar, correr, nadar, mergulhar e até voar com as asas que nós mesmos projetamos. Diante desta maravilhosa liberdade, estamos também sujeitos aos imprevistos, aos incidentes e acidentes, por vezes inevitáveis. Sujeitos ao que nunca gostaríamos de provar. A dor, a perda, o sofrimento, as sequelas físicas e emocionais e por fim até a morte.

Um dos 4600 e poucos gritaria revoltado: Então é nossa culpa? Seu Deus está absolvido? Ao que eu diria: Não é culpa de ninguém meu amigo, nem de nós, nem de Deus. Assim como sorrir, brincar, comer e nascer faz parte da vida. Chorar, sofrer, adoecer e morrer também faz.

Quanto a Deus, o que preciso dizer é o que também já provei em minha jornada. Ele, como o melhor pai do mundo, está sempre de braços abertos para quem precisa de um colo, de um abraço e principalmente de forças pra continuar. Provem! Experimentem! Busquem a Ele! Depois me contem se eu não estava certo.

Aos 4600 e poucos familiares e amigos das vítimas do vôo 1907.

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3 comentários :

  1. Rodrigo7.10.06

    Lutando, crescendo, sonhando, adoecendo, sorrindo, chorando, louvando, dormindo, realizando, entristecendo, sofrendo, apanhando, alegrando, procriando, tentando, procrastinando, ensinando, acordando... morrendo... VIVENDO!

    Texto lindo LP!

    Abração!

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  2. Claudio Becker8.10.06

    Deus continue te conservando esse sábio amigo, irmão, que tem o dom de colocar em palavras os sentimentos que muitas vezes estão presos em nossos corações, e lendo o seu texto, sentimos o alívio, pois um pouco dessa dor que sentimos por vermos nosso próximo em dor, foi transparecida, e se nosso Senhor assim o desejar, que leve um conforto pra essas vidas tão próximas a nós que estão sentindo essa dor, essa ausência, e necessitando mais uma vez do nossa Dele.
    Abraço
    Cláudio Becker

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