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Mergulho no ser


"No lugar mais escuro, a visão mais clara;
no lugar mais apertado, a visão mais ampla;
e no lugar mais solitário, a visão mais solidária.
Foi assim com Jonas e é assim, muitas vezes,
conosco, na própria contradição de existir."

Semana passada fiquei apreensivo com a notícia de uma família que sofrera um grave acidente de carro, no qual uma senhora morreu e outras duas pessoas estão internadas. Seria só um caso triste a mais, isso se eu já não estivesse no lugar em que elas estão agora, entre tubos, seringas, efeitos colaterais, perda e retorno de consciência e roupas brancas vagando ao redor de uma cama estreita e desconhecida.

Não é nada fácil e só há o respeito verdadeiro de quem já esteve lá, no escuro do ventre do peixe, com as algas enroladas sobre a cabeça, escuro e frio como a mais profunda solidão. Este peixe pode ser uma doença grave, um acidente, a perda de um ente querido, o abandono de alguém a quem amamos muito, o desânimo com a atual situação financeira, ou até mesmo a falta de fé. A verdade é que os grandes peixes são muitos e de diferentes tipos, porém todos produzem a mesma sensação.

Minha frase para Deus quando estava em um destes peixes, era a seguinte: Olha Deus, pode até haver um sentido pra isso tudo, mas preciso dizer: Está doendo muito! Nunca fui tão franco com Deus como naqueles dias, aliás, nunca estive tão são, mentalmente, como naqueles dias e provavelmente nunca estarei de novo. É isto o que o ventre escuro e frio do peixe nos proporciona: Um profundo auto-conhecimento. Um mergulho de corpo e alma naquilo que somos, desprovidos de máscaras, de tipos, de poses e normas pré-estabelecidas. Um mergulho de olhos bem abertos naqueles quartinhos escuros da nossa vida que evitamos tanto dar uma ajeitada. Nas palavras não ditas, nos sentimentos não expressados, nos desejos não realizados e nos medos não vencidos.

Sim! Como disse um escritor, "A dor é o mega-fone de Deus". Para muitos deve ser difícil entender um Deus bondoso que se vale da dor para falar, mas não se trata de castigo, se trata de amor, se trata de lição, é uma questão de pedagogia divina. Por isso, se hoje nos sentimos como Jonas, rodeados de algas por todos os lados, sentindo o frio dos nossos medos e inseguranças, aproveitemos esta estadia para se interiorizar e se auto-conhecer, pois lembre-se: não existe fé real sem uma busca sincera e sensata nos quartos mais escuros do nosso pequeno eu. Sem esta busca, só o que teremos é uma religiosidade frágil e superficial.


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2 comentários :

  1. Anônimo2.6.07

    Sofrimento.
    É inevitável o questionamento do porquê, prá quê e até quando.
    Acredito que o Senhor espera de nós estas interrogaçôes, mas também,
    acredito que Ele prima pela qualidade da nossa interpretação quanto ao teste
    e de nossa aceitacão à simplicidade de Sua resposta: Para o seu crescimento
    espiritual.

    Não é fácil, mas acredito que não é de facilidades que se compõe a
    perfeição. Deus é perfeito e só nos encontraremos com Ele se aceitarmos
    isto.



    Junior/ 2007

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  2. O bom e velho "quando estou fraco é que estou forte". Forte pq estamos lúcidos, sentindo tudo, fortes pq lembramos das nossas limitações, que somos feitos de barro e não damos conta de tudo e naõ precisamos dar conta. Precisamos é de ajuda de quem, sim, pode todas as coisas. Somos a imagem e semlehança de Deus, com a imperfeição limitadora do pecado. Somo incríveis. Incríveis e fracos, a não ser quando estamos nEle. A dor nos traz de volta a essa conciência. Como o alerta do corpo quando algo vai mal, infelizmente, infelizmente, infelizmente precisamos dela.

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