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Maduras incertezas

Manhã de domingo, preparava uma aula às crianças da igreja que frequento. Nada de mais, faço isso há uns dez anos, era bico. Pensei em recontar a história de Jonas, o profeta famoso por ser desobediente. A moral da história? Preparava a fala quando aconteceu de novo: dúvidas, hipóteses, incertezas e indefinições. Fiz da história, mil vezes recontada, um verdadeiro debate teológico-científico no qual eu não conseguia achar a moral. Que falta de moral! Desisti! Era minha primeira aula com essas crianças, portanto defini que sentaria com eles ao meu redor para bater um papo. Foi o que fizemos, falamos sobre video-game, escola, namoro, amizade e família.

O fato é que houve um tempo em que me sentia totalmente apto ao aconselhamento. A imaturidade me privava de uma nuvem de incertezas e indefinições que hoje nublam minha mente. Há uns oito anos seria capaz de aconselhar um amigo qualquer, apontando seus erros, instruindo-o no caminho correto. Hoje, já não escrevo tão preto no branco, me metralho de contra-argumentos no instante em que argumento, me entupo de dúvidas enquanto me defino acerca de um determinado assunto. Me sinto complexo, o que não é bom, porém menos altivo, o que não é de todo mau.

Nestes findos tempos de certezas sólidas, também não era assolado pela famosa questão: Quem sou eu pra dizer isso? Hoje ela me amedronta, ou melhor, me cala, pois vejo minhas cicatrizes no espelho, me vejo muitas vezes fazendo o certo, querendo desesperadamente o errado. É, não sou mais gabaritado aos aconselhamentos amadores, mas me sinto gabaritado para sentar em uma mesa com um amigo e começar dizendo: - Cara, eu tô por aqui sempre! O que tá rolando com você? Depois disso conto algum dos meus podres pra quebrar o gelo e começamos uma boa terapia leiga.

Vivo uma época de maduras incertezas, mas se alguém precisar de um amigo já não tão confiante do que é certo ou errado, do que é preto ou branco, alguém que está mais para as infindáveis porcentagens de cinza entre um e outro, aqui estou eu. Talvez, amanhã, algo me prove de que o preto é preto mesmo e de que o branco está alvo mais que a neve. Porém hoje, me debruço na dúvida e aceito o caos como um velho amigo de infância.

[]s
Lucas Pedro
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