No paredão do grande irmão Brasil

Pela TV seu semblante era calmo, resolvido, parecia já saber o resultado. Para ele já havia ficado por muito tempo na casa, parecia estar cansado e perturbado com todas as confusões de sua estadia. Tomou decisões erradas, fez amigos errados, escolheu caminhos errados, por isso estava na berlinda tão cedo.

Ele sabia que seu anjo não o iria proteger por muito tempo, afinal de contas um anjo-refém não ajuda muito. Mas ele não queria ferir o anjo, nem mesmo apontava a arma para ele, pelo contrário, apontava para o próprio peito, só queria um tempo, talvez pra aumentar o ibope nos últimos minutos de fama. Acho que não, o que ele queria é mais um tempo pra falar com a família, não tele-espectadores, pessoas realmente importantes, sua mãe, uma tia mais próxima, talvez, afinal de contas, nove anos de confinamento geram uma saudade absurda de pessoas vitais na vida de qualquer um.

Os pontos de audiência estavam altos, o gatilho estava puxado, os comerciais eram curtos e valiosos, o paredão era literal, o estúdio era pequeno, um bar de periferia, o cenário era de quinta, a equipe estava uniformizada, câmeras, coletes, metralhadoras, todos apontavam para o eliminado do dia no "Reality Show" REAL da televisão brasileira. Até que, enfim, o veredito, com cem por cento dos votos, inclusive o dele mesmo, auto-eliminado, sócio-eliminado, após anos de confinamento em ótimas condições de reintegração na casa, ou melhor, sociedade. Sem balões prateados, nem confetes, nem família e nem Bial esperando. Eliminado.

Podia ser pior, já pensou se fosse em horário nobre!
Correriamos o risco de perder algumas bundas bêbadas dançando!
E assim nos tornamos, brasileiros!

Fonte:
Homem que mantinha refém em São Paulo
se mata com tiro no peito - 21/01 - 20:01


[]s
Lucas Pedro
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1 comentários :

  1. simplesmente perfeito!
    o grande irmão levado às últimas consequências.
    Isso dá um curta...

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