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Arqueologia Pessoal


Naquele momento os discípulos chegaram a Jesus e perguntaram: "Quem é o maior no Reino dos céus?” Chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus”. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus.
Mateus 18:1-4

Esse episódio relatado nos evangelhos me levou a um trabalho de autoconhecimento que pode ser comparado a uma Arqueologia Pessoal. Tenho chamado de Arqueologia pois os profissionais desta área não têm como objetivo solucionar, inventar ou encontrar a cura para algo, como em outras áreas da ciência. Os arqueologistas, pelo pouco que conheço, simplesmente procuram, encontram e identificam aquilo que não está evidente. E é justamente isso que tenho feito em mim. Tenho cavado, encontrado e identificado vestígios e fragmentos de minha psique, não para encontrar alguma cura interior, mas somente para me conhecer melhor.

Pesquisando um pouco sobre a criança, citada por Jesus, me encontrei novamente com os estudos do pai da Psicologia Analítica, Carl Jung. Segundo ele, as crianças não são puras e angelicais como alguns teimam em afirmar. A criança que fomos é nosso ser essencial que nunca deixa de ser, denominado SELF. O que acontece ao crescermos, ao recebermos toda educação e confronto com a sociedade e a cultura é o desenvolvimento do que Jung denomina EGO; nosso ser adulto, que formamos para encarar a vida de forma autônoma, tomar decisões e interagir com o mundo. Além destas duas facetas, Jung ainda relaciona nosso lado reprimido, a SOMBRA, formado por desejos e comportamentos rejeitados pelo EGO por não serem aceitos socialmente. Enfim, segundo a Psicologia Analítica, somos um EU plural.

O mais interessante ao estudar esta área foi descobrir que boa parte de nossas neuroses ocorrem porque não conhecemos a nós mesmos. Desconhecemos que muitas vezes sufocamos nosso SELF que quer sentir, chorar e se alegrar, com o nosso EGO que só quer se mostrar socialmente aceitável. Também desconhecemos nossa SOMBRA com nossa ira, maldade e também nossa criatividade.

Ao cavar em meu sítio arqueológico, descobri uma Criança soterrada pelas obrigações e responsabilidades do Adulto. Tirei o pó dela, lhe dei um banho e tenho colocado os dois frente a frente para negociar e aprender a viver juntos em comunhão, num processo que Jung denominou como individuação.

Associando estes conceitos ao ensino de Jesus, me atrevo a dizer que precisamos nos despir de toda essa carapaça de EGO que desenvolvemos com o passar dos anos, para assim então apresentarmos o nosso SELF puro aos pés do SENHOR. Só assim, sem artimanhas e máscaras, poderemos entrar no Reino de Deus.

Ao nosso EGO ele nos oferece seu Perdão e Ensino, e à nossa CRIANÇA ele oferece seu abraço, seu colo e todo seu AMOR.
Entregue tudo isso a Ele e seja bem-vindo ao Reino de Deus.



"A criança que eu fui, chora na estrada, deixei-a ali quando vim ser quem sou; mas hoje, vendo que o que sou é tão pouco, quero buscar quem fui onde ficou”.
- Fernando Pessoa





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1 comentários :

  1. A criança já tem seu próprio indivíduo registrado ao nascer; este só não é evidenciado por limitações da mente juvenil. Com o passar dos tempos, à medida que a mente vai se desenvolvendo, vemos comportamentos particulares vindo à tona. Muitos se espantam, mas de nada devemos nos espantar, pois a pessoa já existe, apenas em um formato "compactado", rs.

    Por outro lado, também ocultamos muito de nós mesmos por conta dessa imposição cultural em que vivemos. Ainda somos muito vulneráveis ao externo e resistentes ao interno.

    Muito bem observado ao relatar que devemos nos prostar aos pés do Senhor. Somente assim nosso EGO poderá ser dissolvido e o véu que nos cobre ser dissipado.

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