Judeu, ateu, cristão ou muçulmano: nessa Páscoa seja livre!


por Jean Marcel *

Na função de redator publicitário muitas vezes você se vê no limiar de despir-se totalmente de suas preferências, crenças e ideologias para imprimir um conceito, vender um produto ou serviço. Certas vezes, esse ignorar de quem você realmente é, em favor do trabalho, fica apenas próximo e as concessões que você faz não são lá muito desastrosas. Há alguns momentos, no entanto, que o confronto é claro, o choque é grande e a luta interior fica acirrada.

Em outros, há apenas a incapacidade de sair do “eu” cidadão, político, ser com alma, história e educação e vivência. Comigo isso ocorre muito claramente com a Páscoa. Não consigo ser genérico. Não há luta interior, não há conflito, eu simplesmente não consigo criar genericamente para a época da Páscoa.

E digo isso porque  hoje já o faço com o Natal. A data já foi praticamente abolida em anúncios e avisos de recesso de fim de ano. O “Feliz Natal” perde de longe para o “Boas festas”. Certa vez caprichei em um anúncio de Natal para uma empresa que logo se posicionou: “Tente (neste anúncio de Natal) não citar nada religioso, não falar sobre o natal, não queremos ofender clientes e funcionários de outras religiões.” Para mim foi um choque. Foi como dizer “Neste anúncio de chocolate, tente não mostrar muito o chocolate. Não queremos ofender quem é diabético.”  Neste anúncio da nova camisa do time tal, não mostre muito o escudo do clube, não queremos ofender os torcedores dos outros times”. Mas com o tempo fui aprendendo o jogo do “Boas Festas”, “aproveite as festas” “Curta sua família nas festas” e “fim de ano”.

Não consigo fazer isso com a Páscoa. Não achei nada para substituir “as magias”, “Delícias” “doces sensações”. “Páscoa divertida?”. Me fere. Mesmo eu não tendo cruzado o deserto pra chegar à terra prometida e não ter sido crucificado. Repito, me fere. O significado da Páscoa é tão profundo, pungente, em seus dois momentos para a história judaica e posteriormente cristã, para abordagem ser assim, toda opaca.

A data significa justificação, graça, cobertura contra condenação, salvação, liberdade. Significa doação. Não há magia, diversão. Há alegria sim, por esse livramento, mas em meio à dor. Vitória, não brincadeira. Regozijo sim, mas não um deleite material com sabor de chocolate ou bacalhau. Há problemas em comer ambas iguarias? É claro que não. Há sérios danos em fazer um agrado às crianças? Da mesma forma. O que dói é a proibição de comunicar ou mesmo de fazer alusão à origem de tudo. Não bastam as poucas matérias mais informativas dos jornais regionais por aí.

Não, não estou reclamando do mercado ou do meu ofício. Apenas relatando minha incompetência nesse fazer genérico. Expressando minha tristeza em ver algo tão bonito, diminuído. Sinto que a beleza histórica e espiritual da data, seja sufocada por boas e más intenções. Fico triste.

Entendo o drama dos que não creem. Numa época em que ouvimos e lemos todos os dias brados de “o estado é laico!”,  a sexta-feira santa não deveria ser feriado. Deveria ser dia normal, significativo cultural e historicamente para todos, sim, e realmente importante espiritualmente para judeus e cristãos. Fico triste pelos que se sentem ofendidos por terem de “comemorar” feriados cristãos.   A páscoa não deveria oprimir, ofender, aprisionar ninguém. Não deveria ser obrigatória, ditatorial. É contra tudo o que ela significa: libertação, salvação, resgate.

Seja livre e não comemore a Páscoa. Seja livre e não creia nela, mas veja seu significado. Seja livre e festeje o domingo com seus familiares, vá à igreja e celebre com o seu Deus. Seja livre e tente saber mais a razão para eu falar tanto sobre liberdade. Seja livre e celebre a data na sua timeline. Seja livre e reflita no sacrifício que te fez livre. Seja livre e apenas me ignore. Mas não fique preso pelo feriado instituído, pela comida proibida, ou pela cultura que você julga que te foi imposta.

Seja livre.  

Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.
João 8:36

* Leia mais textos do Jean Marcel no Blog: Oqéisso

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