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O que não precisa

por Jean Marcel

Em meio aos meus 36 anos tenho vivido as últimas semanas naquelas de sentir o aniversário feito há pouco. Vivo pensando nas coisas que ficam claras quando passamos da vida de adulto incipiente para a de adulto pleno, como nossas certezas, nossas característica positivas, na qualidade que nos sobra, no bom defeito que nos define, no que somos diferentes do passado recente e acelerado de simplesmente fazer, no que crescemos, e no contraste de tudo isso com certos lados de nossa vida que insistem em nos fazer menores, jogando em nossa cara nossos limites.

Quando somos adolescentes, não somos nada, queremos ser tudo, queremos ser nada, somos isso hoje, aquilo amanhã. Temos pelos de adulto e cabeça de criança. Quando somos jovens vivendo as buscas, experimentando as coisas, assimilando o mundo de verdade, brigando com ele, festejando com ele, começamos achar que temos certezas. Temos pelos de adultos, algumas responsabilidades de adultos, com uma certa permissão de ainda ter a irresponsabilidades da criança, somada à energia infantil.  Quando realmente nos tornamos adultos muita coisa se dissipa junto com os primeiros fios de cabelo branco. A fumaça da energia que nos impulsiona e não nos deixa ver direito e por isso sublima nossos medos, dá lugar a uma visão mais clara das coisas. Você já viveu, já experimentou, você agora é, não importa o quê. Ainda que seja bonito e até mesmo verdade dizer que estamos sempre aprendendo, crescendo, absorvendo, evoluindo, quando somos adultos os filtros estão estabelecidos, as tolerâncias determinadas, a clicheria toda fundida. Ainda que você veja novas coisas, seu olhar já não é lá mais tão aberto. Você já é alguém formatado, alguma coisa, boa, ruim, certa, incerta: você é você.

Mas aí vem o contraste que citei lá em cima. Pode ser em como você age com relação ao trabalho, com as pessoas, com causas, com o dia a dia: deve haver algo que enfia o dedo na sua cara e diz no alto do seu trono de certezas: VOCÊ NÃO É NADA!

Em meio a todas as suas responsabilidades de adulto, senhor de si, você é destronado, diminuído a apenas um espécime da raça humana. Você tinha certeza que ninguém mais te enganava, que tinha sua opinião balizada, que tinha se EU completo, seu jeito de ser. Achava que o cambalear da infância tinha ido embora, que a dualidade da adolescência tinha acabado, que as experiências da juventude tinham sido suficientes.

Em um mundo que desde o ventre já te dizem que você tem que ser alguém, quando você finalmente cresce de verdade, passa por todas as coisas e pode dizer que é alguma coisa, pode haver um momento em que encara a si e vê que se for sincero consigo mesmo, percebe a multidão de incongruências, defeitos, fraquezas, dificuldades que são suas. Pelo menos deveria ser assim. Se você fizer isso sinceramente, você vai perceber: VOCÊ NÃO É NADA...daquilo que dizem que você precisa ser.

Você não precisa ser perfeito, você não precisa ser 100%. VOCÊ não é, por mais que alguém te diga que você é o melhor em algo. Você nunca vai ser 100% E mais uma vez, você não precisa ser o que não precisa. Você também não precisa ser o símbolo da imperfeição. Você não precisa ser o símbolo de nada. As certezas que adquirimos naqueles 10 ou 12 anos de aceleração da juventude servem para sentirmo-nos fortes para só então entendermos o quanto somos fracos.   O quanto tudo o que é oferecido a nós por aí é pouco e quanto o que você já tem é muito. Em quanta irrelevância há na relevância que o mundo está imerso. E isso não fui eu quem disse. E tudo isso que você lê aqui não fui eu quem pensei. Foi uma resposta dEle. Ele falou alto como há muito eu não ouvia, centrado nas minhas certezas. Falou quando me derrubei do trono ao enxergar uma de minhas características mais pessoais, incômodas e resistentes a todas as fases da vida. Ele gritou nos meus ouvidos em 3 minutos e 39 segundos.

E eu voltei a sorrir porque tenho aquilo que preciso. Todas as outras coisas me serão acrescentadas. Porque deixei o que não preciso e carrego uma leve bagagem nas costas. Porque não preciso ser o que não preciso. Porque na fraqueza é que nEle me revelo forte. Porque tudo isso confunde os sábios. Porque novamente Ele me fez louco. Já não sou mais como o planeta redondo diz que é, como meu país diz que é, como minha profissão diz que é, como os doutores da lei dizem que é, como a web diz que é, como os gurus da relativização de tudo dizem que é, como eu digo que é. Já não sou o que não preciso.

Graças a Deus.

Você desprezou o amor e tudo o que ele já te deu
E deu muito mais valor
A todas as outras coisas
Você correu como um tolo atrás do que os olhos veem
E procurou o mundo afora
Coisas que você já tem
E ele te deu as mais loucas pra confundir as mais sábias
E te deixou as mais fracas pra te livrar da tua força
E ele escolheu bem as que não são pra te lembrar que você não é
E que não precisa ser
O que não precisa
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