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O início, o fim e o meio.

por Jean Marcel

Nos últimos dias tenho refletido bastante a cerca do conteúdo que eu compartilho e recebo em minha timeline. Estamos em uma época na qual a proliferação de conteúdo é gigantesca e como sempre acontece, o volume é inversamente proporcional à relevância do mesmo, bem como a sua qualidade. Talvez alguém possa perguntar “e quem é você para questionar a qualidade do que é postado?” Não sou ninguém. E é por isso, por não ser bacanudo, intelectual ou me valer de títulos e marcas, é que este relato se faz, sem falsa modéstia, relevante. Não jogo aqui com o nome ou a camisa, mas sim com a bola no pé mesmo.

O mundo vive uma crise de conteúdo. A facilidade de compartilhar qualquer coisa faz com que a relevância diminua a cada post. Quando falo isso, não estou citando as fotos de gato ou os vídeos de bebês fofos, ou as piadinhas em jpeg. Estou tratando do material que é enxergado como importante. Vídeos, matérias sem profundidade, de curta duração, pensamentos que não se completam e tudo pela necessidade de atrair um espectador - você e eu - que recebe tanta coisa, e acaba por filtrar o que vai assistir nos primeiros segundos de um vídeo ou numa olhada rápida na quantidade de texto de um post. Não temos tempo, links pulam em nossa timeline a cada segundo. O importante é compartilhar, compartilhar e compartilhar: “preciso entreter meus amigos”.

Foi nesse contexto que me peguei pensando depois de assistir a entrevista da Banda Resgate e uma ministração do Rodolfo Abrantes, ouvindo amigos e percebendo que o mesmo acontece dentro do que temos como igreja cristã hoje em dia. Vivemos a época do evento, do marketing, do texto publicitário, do convencimento do irmão a participar de alguma coisa. Recebemos de todos os lados. Shows, congressos, CDs, vídeos, livros (e que livros, todo mundo hoje é conferencista) que você precisa ir, ver, fazer, ouvir e estar para que sua vida seja uma benção, sua família seja alcançada. Uma avalanche de conteúdo que me leva ao título deste texto que mal uso como trocadilho: estamos passando por uma crise em que o fim hoje é o meio.

Nossa vida não está mais baseada na maravilhosa graça, na vida com Ele, na busca dEle e na esperança da sua volta. Nossa vida está baseada nos meios. Não pensamos no fim, em seus dois sentidos clássicos: o de finalidade ou de última coisa, término mesmo, o que no nosso caso tem a ver com a vida eterna. Na atualidade o “meio” nos basta, o conteúdo nos basta, é a nutrição diária das cebolas temperadas com o circo que “não é do mundo”.  Enchemos a barriga de eventos, de canções, saímos deles anestesiados e sem as vitaminas de uma experiência real e contundente da palavra, da música, da poesia, da reflexão. Saímos animados pela luz, pela fumaça, pelos nomes famosos, pelos acordes mágicos que nos empolgam, pelas leituras fáceis e descartáveis, pela “pressão” do ambiente, altura do som, ou jeito eloquente de gritar verdades que deveriam entrar em nossos ouvidos como “doce som” e não trombetas do apocalipse.

Temos oferta desse conteúdo de tudo que é lado, gratuitas e pagas. Há uns 20 anos, chamávamos dentro da igreja o participar de ministérios e eventos em demasia, de “ativismo”. Hoje temos a mesma questão, mas com um número muito maior na oferta de “produtos espirituais”, com uma multiplicação e empobrecimento desses mesmos eventos, mais pautados na maquiagem mercadológica, na atração aos olhos do que no real conforto do coração.  Igrejas e músicos caem na cilada do evento muitas vezes com boas intenções e como diz o adágio, não é o céu que está cheio delas. Atrair para ouvir a palavra, manter o jovem na igreja tiveram sua importância na produção de um conteúdo diferente e contextualizado para se fazer ouvir. Mas hoje tudo isso foi extrapolado e a estratégia passou a ter fim em si mesma. Todo mundo é atraído para ouvir, o problema é que parece que hoje temos pouco a dizer.

Tratamos os meios, os instrumentos, os produtos da mesma forma que a lei era tratada pelos fariseus, como condição para a subsistência diária de sua vida espiritual. Como eles, preferimos o que podemos ver, à presença simples e insubstituível de Jesus.

Vivamos pois o meio como ele deve ser vivido, como transitório. Usemos os meios, como eles devem ser usados, apenas como instrumentos. Experimentemos sim, da graça, todos os dias. Busquemos o alvo que é o verdadeiro fim, e que não seja apenas de palavra.
E por fim, não nos conformemos com a prática mercadológica deste mundo. Como diz o texto inspirado que dá nome a este blog “Transformai-vos”.
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