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Meu filho, o não-rei do mundo

por Jean Marcel - originalmente postado no Blog Oqéisso

Eu não sou pai. Quando digo isso me posiciono como um ser completamente ignorante das dificuldades e esforços concernentes às funções, atribuições e responsabilidades paternas. Na posição de quem vai ter de cuidar propriamente de um filho daqui há 7 meses, ou 30 semanas, como contam os obstetras, observo, escuto e faço minhas auto-análises em um esforço já com o fracasso anunciado de prever minhas reações, desejos e experiências.

Quando falo da minha ignorância, não tem a ver com noites não dormidas, cansaço, paciência com esposa hormonalmente desequilibrada, desejo de fazer outras coisas, ou ainda banhos, trocas de fraldas etc. Falo de sentimentos, de atitudes, de ensinos, de criação mesmo. Muitos ideais que temos, mas não sabemos se vamos mesmo cumprir.

Vi outro dia um artigo compartilhado nas redes sociais com o título "7 comportamentos dos pais que impedirão seus filhos de se tornarem líderes". Obviamente fui ler. A matéria me preocupou menos que o título. Na hora lembrei que segundo 93,5 % dos pais que eu conheço, seus filhos são todos líderes na escola, entre primos ou no condomínio. A coisa do orgulho bobo e natural de pais e mães. Porém,na minha cabeça, pensar na educação da criança para que ela vá ser líder me pareceu algo esquisito, bizarro mesmo. Como disse acima, entendi a matéria mas o título-anzol meu pareceu agressivo e contrário do que me parece ser a tal da educação (e nesse ponto acabo de enfiar a mão num vespeiro).

Quando penso em quem vou ser para o meu filho, como vou tratá-lo, o que vou ensinar, que exemplo vou dar, minha preocupação nunca nem de perto passou pelo quesito liderança. Talvez seja pelo fato de hoje ele ter apenas 3 centímetros.

Ou pode ser porque não é isso que de imediato sonho pra ele ou ela. Sonho que além de portador do combo saúde, ele venha ser uma pessoa na acepção da palavra, Alguém que erre e acerte procurando o acerto. Alguém que se preocupe com os outros, que ame. Que seja seguro de suas convicções, mas não arrogante sobre elas. Alguém que ame a Deus e se relacione com Ele. Alguém que saiba da suas limitações, mas não seja oprimido por elas. Alguém que adore dizer não sei. Alguém que se preocupe e gaste tempo com o que é importante. Que chore quando for a hora, que ria sempre que possível. Alguém que saiba lutar com as armas da paz. Que seja simples como a pomba e prudente como a serpente. Que não seja levado por modismos. E que tudo isso seja gradativo, que seja aprendizado, que seja processo. Que ele seja o profissional que ele quiser e que ele entenda o que isso acarreta. Que ele saiba que tudo na vida são escolhas e que não há desculpas, mas há perdão. Que ele nos perdoe pelos nossos erros e idiossincrasias mais esquisitas impressas em sua educação. Que ele sofra quando tomar pancadas da vida, mas que se levante pra ficar de bem com ela novamente.

Talvez todos esses sonhos, no fim das contas, o ajudem a ser um líder, ou o certifiquem que o melhor é ser um servo, mas o mais importante é que ele seja ele.

Agora, se além de tudo isso, assim, por acaso ele ou ela souber pintar, escrever ou tocar um instrumento bem pra caramba, não vou ficar triste, é claro.
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