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Lições de uma vira-lata

Nossa vira-lata, Nina, esteve entre nós por apenas vinte meses, porém, neste curto período de convivência pude aprender algumas lições que gostaria de registrar neste diário de bordo público da minha vida. Ela chegou até nós por intermédio de sua salvadora e madrinha Raphaela Mael que a resgatou das ruas em um estado precário. Os veterinários diziam que ela tinha por volta de nove anos de idade. Perdeu todos os dentes, por conta de um espancamento ou algo do tipo, por isso chegou aqui em casa muito abatida e amedrontada. Passou alguns meses muito bem, mas logo apresentou um tumor agressivo que, mesmo após uma cirurgia e muitos remédios, não regrediu e a matou. Pode parecer bobagem, afinal foi só mais uma cachorra de rua, mas acredito que todos os seres são importantes para o Criador e gostaria de provar isso com algumas lições que ela me deixou, sem dizer uma única palavra:

Sobre afinidade e tolerância: ao chegar em casa ela demonstrou uma afinidade natural para comigo. Mesmo amedrontada, ela se aproximou de mim e me olhava com um olhar de identificação. Cachorros são assim, por isso gosto deles. Eles nos fitam nos olhos e nos leem. Parece que eles enxergam algo mais que nós, humanos, não conseguimos ver. Por outro lado, a Nina não apreciava algumas brincadeiras mais intensas do Vitor, meu caçula, porém, ela tolerava essas brincadeiras com a cabeça baixa e um olhar compassivo. Esta foi a primeira lição da Nina. Na Bíblia, no Velho Testamento, há uma expressão assim: “Fulano, achou graça diante de Ciclano.” Esta expressão significava que ambos se afeiçoaram, sentiram aquela amizade instantânea por pura afinidade. Aprendi com a Nina que devemos valorizar estas amizades e nos entregar de corpo e alma a estes amigos de coração que acabamos conquistando pela estrada. Porém, também existem aquelas pessoas pelas quais não há nenhum tipo de identificação ou afinidade. Para essas, a Nina me ensinou que devemos manter a cabeça baixa e um olhar compassivo e tolerante.

Sobre traumas e sequelas: A segunda lição que a Nina me ensinou é bem nojenta, mas precisa ser registrada também. Desde que ela chegou aqui em casa, procuramos servir bons alimentos e boas rações, principalmente pelo fato de não ter dentes, ela carecia de alguns cuidados especiais. Independente destes cuidados, ela mantinha o nojento costume de comer suas fezes. Por mais que a comida estivesse ao seu dispor, diariamente, seu hábito repulsivo continuou. Conversando com um veterinário, ele me explicou que se tratava de um distúrbio comportamental, causado provavelmente por trauma de ter vivido em algum tipo de confinamento onde lhe faltava alimento e, nesta situação, foi necessário comer as fezes. Seu distúrbio me ensinou que todos nós passamos por momentos traumáticos e acabamos mudando nosso comportamento por conta destas sequelas emocionais. Traumas são cicatrizes na alma e elas existem também para confirmar que o passado foi real. A Nina me ensinou que, diferente dela, por eu ser racional, posso dizer à minha alma que o passado foi real, mas que o presente e o futuro podem ser diferentes e melhores.

Sobre a gratidão pela vida: A Nina estava com um tumor aberto na barriga. Horrível. Ela sofreu bastante. Uma segunda cirurgia não era recomendada por sua idade. A despeito disso, ela se alimentava, tomava os remédios, se hidratava, latia e saía de casa quando abríamos o portão para poder ver o dia. Curtir a rua! A vida lá fora, que nos assombra e nos alegra. A Nina sabia por instinto que a vida é uma dádiva. Um presente Daquele que nos colocou aqui. Mais do que isso, ela sabia que este Ser, que nos trouxe aqui, não nos deve nada. Pelo contrário, nós é que devemos a Ele toda gratidão pelo dom da vida. Nossa racionalização humana, em excesso, nos afastou deste instinto e em consequência nos afastou da gratidão. Estamos abandonando até os valores mais instintivos e viscerais da nossa alma e ainda chamamos isso de evolução e progresso. Reclamamos do estio, reclamamos da chuva, reclamamos do frio, do calor, do trabalho e do ócio. Reclamamos como se o Criador, o Universo, a Vida, devesse algo a nós. Ninguém nos deve nada. Somos nós que devemos ao Criador, a gratidão pela vida que nos foi dada. A Nina sabia disso e acabou me ensinando com seu silencio, submissão e resiliência. Ela morreu em minhas mãos. Seu corpo diminui, encolhendo-se no momento que sua vida foi embora, sabe-se lá pra onde. Alguns, brincando, dizem que há o céu dos cachorros. Não sei e pra falar a verdade, não quero saber. Só sei que a Nina se foi e me deixou estas preciosas lições.

Obrigado Nina!
Obrigado Deus!
Me desculpem por algo.


"Toda formiga conhece o segredo do seu formigueiro,
toda abelha conhece o segredo de sua colmeia.
Elas o sabem de seu próprio jeito, e não do nosso jeito.
Somente a humanidade não sabe seu próprio segredo."
Fiodor Dostoievski



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1 comentários :

  1. Anônimo4.3.14

    Foi muito bom ler este artigo, por dois motivos: primeiro pq estamos passando por uma situação semelhante a esta da Nina. Temos uma cachorrinha, Brisa, também que já fez cirurgia, porém agora retornando os problemas. Da mesma forma tem nos ensinado com seu carinho e sofrer sem reclamar.. enfim, não preciso repetir o que citou. O 2o. motivo é exatamente este, nós como filhos de Deus, não paramos de reclamar.... precisamos aprender com estes pequenos seres a valorizar nossas vidas. Rosangela

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