Não desgravar

O pai
...me lembro de esperá-lo pra chegar do Jornal, onde trabalhava como digitador. Me lembro do cheiro de mingau de maisena na panela, uma de suas especialidades. Me lembro das lutas épicas na cama, onde ele era sempre o vilão e eu o herói que nunca ganhava as batalhas. Tenho o som das músicas dos Beatles, gravadas e regravadas em minha mente, por seu violão velho que ele tocava deitado na cama, após o trabalho. Lembranças boas que, por um bom tempo, decidi ignorar...

A sombra
...decidi lembrar dos momentos ruins, de suas decaídas alcoólicas, de suas depressões e distanciamentos. Decidi que todas as minhas dificuldades derivavam de suas imperfeições como pai, como líder do lar. Fiz dele meu vilão e desta vez não era brincadeira. Atribuí a ele a culpa por todas as minhas sombras. Alguém tinha que receber a culpa, para que eu pudesse continuar minha heroica jornada da maturidade...

O homem
...mas a maturidade, ainda que tardia, chegou e me levou até o espelho para me mostrar meu verdadeiro vilão. Tarefa difícil, pois somos hábeis em disfarçar a verdade com mentiras bem elaboradas. Me olhei por alguns minutos, até ver um simples homem com qualidades e defeitos. Então, pela semelhança física e emocional, me lembrei dele novamente, com todas as suas nuances positivas e negativas; do pai, do vilão, do homem...

Não desgravar
... e de tudo que ele representava. Pequei tudo e trouxe à tona novamente. As luzes e as sombras. Aprendi que tudo importa, pois todo desenho precisa de luzes e sombras para acontecer. Toda imagem que fazemos de nós e do próximo, precisa também de toda claridade e de toda escuridão. Resolvi não desgravar.



Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Mateus 22:39

Em homenagem ao meu pai, Ronald dos Santos, a quem amo.
Abaixo um vídeo com uma música que ele compôs em 2003.




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2 comentários :

  1. Nossa, Lucas! Ameeeei! Você precisa publicar seu livro!

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  2. Lindo, corajoso, sem cera, lindo.

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