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Secreções

ATENÇÃO! Este não é um texto edificante, pelo contrário, é só uma secreção. Se estiver precisando de um texto "positivo", tenho mais de cem textos neste blog que podem te ajudar. Este é só um texto de mim para mim mesmo que teve a petulância de se tornar público, afinal, secreções não deveriam ser publicadas. Este texto também não é recomendado para pessoas de estomago fraco e nem para cristãos neófitos e superficiais.

Entrei no banheiro do quarto do hospital onde meu amado Tio Fernando estava internado e chorei. Minto, eu vomitei lágrimas dos olhos e ranhos do nariz. Aquilo tudo saiu sem controle e em grande quantidade e então cessou. Saí do banheiro, me aproximei do leito onde meu tio estava, ouvi suas últimas palavras e vi ele morrer ali mesmo. Outros parentes e amigos choraram ao redor do leito, porém, eu não chorei mais, pois já havia esgotado minhas secreções. Aprendi que meu corpo sempre lidará assim com secreções, de modo exagerado e repentino.


Alguns dias antes deste episódio, era eu que estava no leito de um hospital. Meu corpo pulava com uma febre que nenhum remédio conseguia baixar. Naquele noite eu dei trabalho para a enfermagem que trocou o lençol da cama e as minhas roupas várias vezes, pois a febre cedia e voltava rapidamente. Pela manhã, o enfermeiro me levou para dar banho. Me colocou no chuveiro e percebeu que estava saindo pus de uma das aberturas em meu abdômen. Ele ficou preocupado, pois meu caso era de infecção grave e os médicos precisavam acompanhar como meu corpo estava reagindo. Ele correu para pegar um copo descartável e acabou coletando um copo de pus que saiu do meu peritônio. Pensei comigo, estou podre por dentro. Vou morrer. Entretanto, depois daquele episódio nojento, exagerado e repentino, meu corpo se recuperou, ele expeliu aquela secreção, se livrou dela e conseguiu reagir.

Hoje, também preciso expelir secreções. Secreções da alma e não do corpo. Estou profundamente triste. Além disso, estou com um sentimento de isolamento, porque não sinto que posso desabafar com ninguém sobre meus sentimentos. Não me sinto rodeado de amigos, não me sinto digno de ter amigos, não acho que sou leal e também não acho que ninguém será comigo. Meu romantismo por amizades, relacionamentos e afetos está esgotado. O tanque está vazio.

Confio que Deus me vê e me entende mesmo assim, cheio de rancor e desprezo. Entendo também que essas situações me lapidam muito mais do que um dia perfeito de sol e de afeto de amigos. Só peço, então,  paciência, fé e sua presença santa nestes dias pagãos. Não quero amigos,  nem pais, nem irmãos. Estou no auge do meu individualismo pós-moderno e me sinto bem com ele. Só peço por Deus em minha vida, como um bom egoísta que sou. O "próximo" pode me criticar por isso é até bater na minha cara, só não digo que vou amá-lo depois como o Mestre ensinou. Mas eu aguento a porrada e não espero nada melhor do "próximo" neste momento. Talvez, amanhã, seja eu o agressor, talvez eu tenha sido ontem. Então pode vir.

Não é a surra que me oprime. O que me angustia é não ter mais o conforto de projetar toda culpa na terceira pessoa do plural (eles), me isentando de todo erro e me colocando num posicionamento incorruptível. Hoje, infelizmente,  sou consciente de que o erro, a maldade - é nossa - , na primeira pessoa do plural(nós) e assim eu, tu, ele,  - nós - , vós e eles somos podres traidores de nós mesmos, numa espiral infinita de facas enfiadas nas costas onde vamos caindo e caídos somos e ficamos. É o - nós - que me confronta e me impede de desabrochar palavras bonitas de uma vítima inocente que eu não sou, nem nunca serei. Só peço que Deus me poupe dos polidos e certinhos senhores da verdade e da ética com seus discursos de autoajuda barata. Me livre deles para que eu não projete minhas secreções sinceras e profundas em suas caras limpas e perfumadas. Não, não há - eles - que erram. Como também não há - eu - que sou vítima. Infelizmente tenho esta consciência irritante. Queria não te-la hoje.

Pra finalizar, peço também que o "próximo" que lê estas podres linhas, não me defina por essas palavras, pois elas são como minhas secreções exageradas e repentinas que precisam sair, a despeito dos julgamentos, nojos e críticas externas. Elas simplesmente saem da alma como saem do corpo quando está doente e precisa expelir o que é mal. Que se retirem e me permitam viver em sanidade e, talvez até,  em santidade. Amém.
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2 comentários :

  1. Profundo Lucas Pedro.
    Já me senti assim algumas vezes, só não consegui expressar meu sentimento. O vazio que toma conta da gente é por demais angustiante e o nó que dá na garganta pode ser o copo de pus que a gente precisa expelir. No meu caso em todas as vezes eu engoli, ou por não poder expelir (magoar pessoas queridas) ou por falta de coragem mesmo.

    Por isso peço permissão para tomar essas palavras, ou secreções, para mim também.

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  2. É bem assim.Em algum momento da vida nos sentimos assim e precisamos expelir tais sentimentos. É para quem tem coragem!

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