Natal: batata grande acompanha?



Escrito por Jean Marcel Coutinho

Era um sábado qualquer, com a diferença da proximidade do Natal. A bela família atrapalhada com os percalços do primeiro ano de paternidade, misturado às obrigações natalinas, decidira almoçar rápido, lá pelas 3:30 da tarde, que foi quando o filho acordou da soneca. “Vai fast food mesmo” disse a esposa, citando o nome do restaurante. O marido concordou com um eloquente “é”. Restaurante com dois ou três clientes, não ia demorar, o lado bom de almoçar em horários alternativos. Escolheram uma das duas únicas mesas redondas existentes no local, posicionada ao centro da parte lateral da lanchonete, distante dos caixas e das filas, que naquele dia não existiam. A mesa meio que formava um oito com a outra, separando as duas, mas permitindo um certo contato visual.

Pedidos feitos, combos na bandeja, bolacha de água e sal sobre a mesa. Bebê pulando no sofá, pais se revezando na mordida e no cuidado. Como se nada houvesse um menino de uns 11 anos entra no local, passando direto para o salão lateral e senta-se à mesa que completa o oito. O pai da família percebe o menino entendendo que é alguém esperando “a galera”. Continua comendo seu hambúrguer com os olhos no filho com pouco mais de um ano. A mãe também vê o companheiro de mesas redondas, mas não percebe nada de diferente. Até que o garoto se debruça sobre a mesa como quem vai dormir.

Os adultos da mesa infinita nada veem, mas o bebê sim. “Naná, naná, naná!” Diz o pequeno apontando para o menino que fazia tal qual o bebê em suas sonecas. O casal é então obrigado a olhar por sobre a curva estofada que dividia as duas mesas. Nesse momento pai e mãe, marido e mulher, se olham com a intimidade de conhecer as palavras antes que elas sejam ditas, coisa que só um casal com algum tempo de relacionamentos pode ter. O homem imediatamente levanta-se, vai até o caixa e sem mais, volta com um combo igual ao que comprara para si, deixando a refeição logo à frente dos braços usados pelo menino como travesseiro. Exausto, o garoto não se move, sua necessidade era dormir em um ambiente minimamente confortável. Descansar o corpo e a frágil mente de tudo o que ele vivia dia após dia.
Pouco tempo depois uma das funcionárias do estabelecimento agacha-se junto à mesa ficando pouco mais baixa que o menino e diz quase que sussurrando “você prefere chocolate, morango ou doce de leite? ” Obrigado a acordar, o menino ainda meio confuso olha para a funcionária e depois para a bandeja com as guloseimas à frente. Assustado, volta seu olhar para a funcionária novamente, que repete “chocolate, morango ou doce de leite? ” A resposta é um quase sorriso que teima em não crer na materialidade do que acontecia ali. “Morango, dona. Eu prefiro morango. ”

Essa é uma história verídica. Pelo menos parte dela é. O trecho que vai até o bebê percebendo o menino dormindo. O que aconteceu em seguida foi que pai e mãe envoltos em cuidar do filho não perceberam quem era o menino. Já a funcionária foi até o garoto sim e disse “está com sono? ” Que é que você está fazendo? ” “to esperando um amigo. Só esperando ele aqui! ” Respondeu o menino com cara de cansado. “Você tá é dormindo. Então vai dormir lá fora! ” No que nosso insone rapazinho obedeceu desconsolado imediatamente. A família terminou sua refeição rápida e foi para os afazeres de natal. A funcionária voltou pra cozinha do restaurante e seguiu sua jornada de trabalho.

A versão com decorações natalinas não existiu. Ou talvez tenha encontrado guarida no sonho do menino durante seu sono conturbado. Talvez tenha acontecido platonicamente na criatividade cinematográfica do pai ou no idealismo da mãe. Talvez tenha sido assistida na TV em algum filmezinho natalino e ficado no subconsciente cansado da funcionária, depois de pegar o segundo ônibus pra voltar pra casa. A única certeza é que o menino estava com sono e como um outro menino mais famoso ainda bebê, não tinha lugar pra dormir.

Talvez o menino de hoje esteja à espera de que alguém o enxergue como o bebê do restaurante fez. Alguém que simplesmente perceba a sua necessidade. Talvez ele esteja à espera dos seus reis magos partirem logo para a jornada, mas guiados não por uma estrela brilhante, mas por aqueles que são chamados de luz do mundo.

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