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Ex-apolítico

- Pai, o político X é muito ladrão!
- É filho? Quem te falou isso?
- Num sei, todo mundo na escola tá falando.
- O que ele roubou filho?
- Não sei! Só falaram isso.


Eu fico na fronteira entre a Geração X e a Y. Traduzindo, sou quase um menino para os idosos e quase um idoso para os jovens. Também sou Cristão-Evangélico-Reformado. Por essas duas características, me entendi como um adulto apolítico. Cresci ouvindo "político é tudo corrupto" e que nossos governantes são lixo. Na adolescência, fui influenciado pelas bandas de rock brasileiras, com o mesmo discurso de política lixo. Na igreja, aprendi que nosso reino não é deste mundo e que este, jaz do maligno. Estes e mais alguns fatores, me transformaram num adulto que se gabava de sua formação apolítica. Me orgulhava do meu estilo "o último dos moícanos". O cara que está aqui, mas não é daqui. Praticamente incorruptível por seus altos valores morais.

Entretanto, no limiar da minha segunda infância, lá pelos 24 anos, já casado e com dois filhos, algumas construções mentais, erguidas por aquele primeiro ego pós-adolescente, começaram revelar diversas inconsistências em meus valores e certezas. Algumas leituras foram importantes, em especial o livro A IGREJA, O PAÍS E O MUNDO - Desafios a uma fé engajada, do saudoso Robinson Cavalcanti. Este livro, além de me levar de volta para a igreja, também foi o responsável pela destruição do meu elegante posicionamento apolítico, no qual esbraveja: "Tem que jogar uma bomba em Brasília!" com a boca cheia de carne, num churrasco de domingo. Mais do que isso, as argumentações do Robinson me fizeram sentir vergonha deste posicionamento alienado, escapista e perigoso. Aquelas poucas linhas me fizeram entender que o caminho do cidadão responsável, independente de seu sexo, credo ou raça, se dá por meio da manutenção das políticas públicas. Parece ruim, mas sem isso tudo fica ainda pior. Entendi também que, neste posicionamento apolítico eu estava apenas replicando frases desconexas e informações inconsistentes, desprovidas de qualquer pensamento reflexivo. Por fim, me dei conta da tamanha covardia ao ecoar críticas que nem eram minhas, enquanto me isentava de tomar qualquer caminho político para manter minha aparente polidez moral.

De lá pra cá, me envolvi um pouco, tomei posicionamento. Me alegrei e me decepcionei muito com a política, mas o que permanece é a responsabilidade sobre aquilo que expresso e também com o que resolvo ecoar dos outros e da mídia. Entendo que minha voz capacita e forma a mentalidade dos meus filhos e de outros que estão ao meu redor. Uma voz que pode ser burra, odienta e aprisionadora, ou reflexiva, pacífica e libertadora. Acima de tudo, esta voz precisa ponderar e isso é ser político.

Hoje, o Brasil vive um caos político. Escrevo este texto, mais como registro histórico da minha jornada como cidadão e também como registro do momento tenebroso que a política brasileira vivencia. Escrevo este texto também por estar preocupado com o simplismo que percebo no ecoar de vozes que, no mínimo, deveriam estar caladas por desconhecer aquilo do qual estão falando. Porém, também entendo que como seres politizados, todos nós devemos ter direito a palavra. Escrevo, por fim, na esperança de que este processo doloroso sirva para nos politizar, no bom sentido e não apenas na reverberação de jargões prontos.

Peço a Deus que cada cidadão, especialmente o cristão, tome seu posicionamento político e o exerça com pensamento reflexivo, com respeito, liberdade e dignidade.

Em Cristo.
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