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Pessach

Sou daqueles chatos que na Páscoa falam sobre o sentido real blá,blá blá. Daqueles chatos.
Mas dessa vez vou fazer diferente. Vou falar sobre chocolates. Chocolates são muito gostosos.
Chocolates são feitos de uma fruta extremamente proteica, o cacau.

O momento é difícil para quem vende chocolate, como também é difícil para quem escreve e para quem emite opinião. Estou falando de opinião mesmo, não manifestação de raiva via redes sociais. A economia está ruim, o que faz com que as pessoas pensem quatro vezes antes de comprar um ovo de páscoa. Pensar quatro vezes, que é o que hoje em dia ninguém faz antes de exercitar sua ira diante de um texto ou uma opinião. A indústria do chocolate sabe que terá uma retração no faturamento desse ano. E, falando em páscoa talvez tudo isso seja uma bela oportunidade. Uma oportunidade de repensar se precisamos mesmo de ovos de chocolate para comemorar a páscoa e o que as coisas significam para nós.

Quando uma crise afeta o orçamento doméstico as pessoas repensam seus gastos, suas prioridades (como ovos de páscoa, por exemplo). Quando um momento de crise moral acontece, uma oportunidade de cada um refletir no que deve fazer, se apresenta. É um momento de pensar. E, só aí, é um momento de agir. Mas em um momento de crise há o desespero, o cérebro manda sangue pras pernas e a gente sai correndo por aí, sem direção. É aí que chega o momento de respirar e dizer “espera, o que eu vou fazer?”.

Quando o povo hebreu havia acabado de passar pelo mar vermelho e se viu livre dos perseguidores egípcios, deu de cara com o deserto. E não é que veio desespero? E esse desespero culminou em muita, muita indignação. Por causa desse desespero o povo esqueceu-se dos séculos de escravidão no Egito e começou a sentir saudades do Faraó. Foi esse tipo de esquecimento que fez com que o Deus dos hebreus e seu humano escolhido desenvolvessem festas, rituais e inclusive leis para que o povo se lembrasse tintim por tintim do que havia acontecido. Uma tradição que os segue até hoje. Se a palavra páscoa em hebraico (‘pessach’) significa passagem, é por causa dessa necessidade de lembrança. Pois esquecer quem somos e o que vivemos nos faz ignorar lições do passado e repetir erros em momentos de desespero. A Páscoa é essa passagem de uma época nefasta para o novo, para as possibilidades de uma terra a ser descoberta.

A Páscoa de Cristo, da mesma forma foi um memorial. Tanto no momento do partir do pão quanto do vinho, Jesus exaltou o lembrar daquilo “Fazei isto em memória de mim”. Lembrar o que aconteceu com Ele é lembrar a passagem de uma época em que todos viviam sob o peso da condenação para uma época de amor e Graça.

Lembrar é isso. É perceber a vantagem que ganhamos na passagem. É gravar na mente o que foi ruim para não retroceder. É lembrar do passado para continuar livre dele. É fazer a passagem daquele tempo antigo em nossa mente hoje para garantir a diferença no futuro.
Vivemos dias maus em que todos nos excedemos em nome do desespero de resolver alguma coisa. Que nessa Páscoa a gente se lembre das ‘passagens’ do nosso país. Que a gente pare, respire, pense, faça mais uma passagem e esteja pronto para a perspectiva de um novo Brasil a se desbravar.

Ah, mas eu estava falando de chocolate, né? Me distraí, passei reto...

Escrito por Jean Marcel Coutinho

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