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Da solitude à solidão

“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho.
E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”
- Paul Tillich


Me dei conta de que nunca escrevi sobre solidão, com certeza porque nunca havia sido assombrado por ela. Sempre gostei de estar sozinho e acabei descobrindo mais tarde que esta ação de ausentar-se do meio social, voluntariamente, é chamado de solitude. Esta tal solitude é prazerosa, especialmente aos introvertidos que inclusive precisam de alguns minutos de solidão para carregar suas baterias emocionais. Diferente dos extrovertidos que a carregam no convívio social. Por ser introvertido, me sinto bem em uma caminhada solitária, em alguns momentos a sós em casa, na qual converso sozinho feito louco, às vezes até numa discussão acalorada.

Loucuras à parte, a solitude também pode vir acompanhada do silêncio, com o qual conseguimos atravessar aquela arrebentação de pensamentos caóticos da consciência, com suas necessidades e cobranças objetivas, para nos encontrarmos com o real estado da nossa psiquê. É lá, depois das ondas, que podemos nos encontrar com quem somos de fato. É ali que podemos saber se estamos bem ou mal naquele momento.

Gosto tanto de solitude e silêncio que até me esqueci do tema proposto: A tal da solidão. A solidão não tem nada a ver com estar sozinho. Solidão é um buraco negro que pode te sugar até mesmo numa festa rodeado de amigos ou também quando estamos a sós. Este buraco negro tira você de onde for e sussurra em seus ouvidos, frases do tipo:
- Eles não querem saber.
- Ninguém se importa.
- Você não tem ninguém.

A lista é longa e não foi o Diabo que a criou, fomos nós mesmos. A solidão vem de nós quando nos damos conta que a dor é individual, antes de ser coletiva. Ela vem por fatores externos, quando realmente não temos com quem desabafar o que está pra lá das arrebentações da nossa alma. Ela também vem por fatores internos, quando impomos a nós mesmos a ideia de que não temos ninguém para compartilhar, numa espécie de autoflagelo onde ninguém pode entrar para nos ajudar.

Talvez você tenha previsto que eu iria concluir este texto falando sobre a importância de buscarmos a Deus nestes momentos, porém, não farei isso. Vou falar de Jesus, mas em sua humanidade. O grande mestre gostava e praticava a solitude com frequência. Vários textos dos quatro evangelhos revelam Jesus se ausentando de todos. Entretanto, em um dos momentos mais sombrios de sua jornada terrena, ele sentiu solidão. No Getsêmani, o texto revela seus momentos de oração intercalado com momentos nos quais ele pedia que seus discípulos estivessem com ele. Mas eles dormiam profundamente. Eles não queriam saber. Ninguém se importava. Ele não tinha ninguém. Ele provou da solidão e foi humilde para pedir ajuda humana e real, mas não teve.

Mais uma vez o Mestre nos ensina, não como divindade,  mas desta vez com sua humanidade não caída. Ele nos ensina que solidão autoimposta é engano. Ele nos ensina que a solidão se cura com pessoas que se importem, com amigos de fato e também com humildade pra pedir a presença deles, pra implorar que se importem, pra implorar o ser ouvido, quando a dor está demais pra se suportar sozinho. Ali Ele nos ensinou a utilidade da Igreja como expressão da presença física de Deus. Por si só, o Getsêmani também nos ensina que os amigos e parentes, com sua humanidade decaída, podem e vão falhar em nos ouvir, em nos ajudar, pois o individualismo, assim como a solidão é parte do que nos falta. É parte da humanidade que não temos sem a presença completa de Deus.

Que possamos aprender com a humanidade completa de Jesus.
Transformai-vos!

"Quando voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Então os deixou novamente e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Depois voltou aos discípulos e lhes disse: "Vocês ainda dormem e descansam? Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores."
Mateus 26:43-45
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