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A heresia nossa de cada dia


Texto por Jean Marcel Coutinho

Dias atrás conversava com meus irmãos sobre a credibilidade de certo pastor falastrão que, embora diga muita coisa fiel à bíblia, adora também praticar publicamente algumas notáveis heresias. Conversando sobre a relevância ou não de algo que ele havia publicado, citei um outro pastor referência de equilíbrio pra mim. Imediatamente meu irmão disse, "é mas esse fala tantas heresias (só que outras) quanto o primeiro!" (não citarei o nome dos pastores pois objetivo não é suscitar paixões por esse ou aquele, dizer quem é melhor ou pior, nem mesmo discutir teologia). Minha irmã, sem perceber citou outro, que era famoso e ficou meio doidinho, e hoje é pra alguns símbolo de sinceridade profética e pra outros alguém digno de manicômio.

Aquilo deu um nó na minha cabeça. Como aquele homem que eu julgava tão equilibrado poderia ser um herege?
Como meu irmão poderia achar isso? Será que posso ouvir o falastrão que eu julgo herege, e dar algum crédito? Será que o louco que diz coisas sóbrias faz algum sentido?

Imediatamente lembrei de amigos pastores que preocupam-se com diferentes doutrinas que entrariam dentro da comunidade onde estão. Lembrei que um deles estava numa cruzada contra uma teologia tradicional e histórica no meio protestante que se mostrava atrativa para os jovens de lá. Teologia esta, base de fé do meu irmão, que por ironia está na igreja desse pastor. Lembrei da minha saída de uma igreja por ver barbaridades, minha peregrinação para achar outro pouso eclesiástico e minha situação atual. Percebi que se o lugar onde estou hoje não é herético, não o é para mim. Lembrei que já ouvi coisas com as quais não estou totalmente confortável. Lembrei que entre outras coisas, essa seja a razão de termos tantas placas diferentes nas igrejas. Lembrei de outro amigo cujos irmãos de fé acham um absurdo falar sobre cidadania na igreja.

Percebi que realmente o conceito de heresia da bíblia talvez não se aplique a tudo o que citei aqui. Mas é como o usamos hoje. Percebi que talvez existam heresias circunstanciais, demográficas. Estas dependem de um determinado grupo de pessoas, de sua origem, sua classe e formação com convicções que vão muito além das religiosas. Para cada um desses grupos, há dissonâncias teológicas, desvios de caráter e demais distorções da fé mais suportáveis que outras.

Pode somar-se a tudo isso o fator "vida que segue", que, dependendo do nível, pode ser encarado tanto como conformismo, quanto maturidade; uma linha tênue. Dentro desse pensamento está a ideia de que cada um, em certo momento da vida, mesmo os que refletem bastante sobre tudo, precisam colocar um ponto e vírgula em suas buscas pra poder prosseguir. Como o adolescente que cresce, vira jovem e forçado a amadurecer, faz escolhas acadêmicas e profissionais é arca com elas. Não dá pra questionar tudo e todos sempre. Precisamos de um pouco de certeza nesse mundo relativista, ou ficamos parados em eternas interrogações. Nesse sentido, cada um de nós pode esbarrar em um erro mesmo quando estamos tentando acertar, prosseguindo com a vida, inclusive servindo. Nos fecharmos numa ideia pela necessidade de tocar a vida em frente, ter algo para se apegar. Aí, rechaçamos o que está em volta, pois aquilo fere nossa certeza, aquilo com o qual fechamos questão. E se não fere nossa certeza, vai contra o que sabemos. E isso na idade média tinha um nome para a igreja dominante: heresia. De bater palma a cortar cabelo, passando por marcar território, fazer tatuagem, o texto do dízimo, dizer como Jesus vai voltar, e será o fim dos dias. Tudo pode ser, tudo pode não ser.

Em todas as comunidades toleramos o que é heresia ou pecado para outros em nome do que é corpo ou em nome das nossa convicções, do nosso jeito de ser. A igreja de Cristo é essa soma. Soma de comunidades cheias de gente diferente tentando conviver com o máximo de similaridades possíveis para essa convivência fazer sentido. Um corpo que se um órgão muda o funcionamento, todo mundo se ajusta ou pede pra ele voltar ao normal, ou ele acaba sendo transplantado. 

A igreja é uma noiva com TPM, morando em uma cidade em guerra, tentando organizar a festa de casamento dos seus sonhos, ao mesmo tempo que tenta fazer a vontade da mãe, da sogra e das tias há poucos dias das bodas. E no meio dessa profusão de ideias experiências, vontades, indignações interpretações e influências internas e externas, a moça casadoira esquece-se do Noivo. 

E nisso tudo Ele é a nossa única certeza. Solus Christus. Afinal, o que permanecem, já há 499 anos, são os fundamentos que resumem a fé cristã reformada:
Sola scriptura - o que foi dito sobre Ele, é inspirado por Ele, que é a sua Palavra.
Sola gratia - que é através do seu sacrifício, favor a nós imerecido, pelo qual temos a redenção.
Sola fide - é a fé nEle que nos salva. Soli Deo Gloria: dEle, por Ele para Ele são todas as coisas.
O que vier a mais tenha certeza, pra alguém nesse planeta vai ser pecado ou a heresia "sua" de cada dia. E aí, o mandamento é "ame ao seu próximo". Ninguém falou que ia ser fácil...

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