Amicitia



- Quais amigos? - perguntou a Ju, com sua  natural falta de rodeios. 

A questão caiu indigesta.
Em milésimos de segundos, meu cérebro tentou elencar alguns, mas a pergunta ecoou em outro sentido: Estes são mesmo seus amigos?
Mais alguns milésimos de segundo e eu respondi: acho que sim. Ao que outra pergunta ecoou de novo: E vc tem sido amigo deles?
- Poxa! - disparei contra a Ju. - pegou pesado, hein! - concluí em um tom dodói.

Nem lembro a continuação da conversa, mas aquelas perguntas continuaram ecoando como um sino e acabaram virando motivo de piada entre nós. Tenho lembrado a Ju sobre esta pergunta, com a ameaça de que escreveria sobre isso.

Após um tempo, lá estávamos nós dois caminhando na praia. Chegamos em uma plataforma feita de pedras que avançava em direção ao mar. Olhei para as pedras sendo moldadas constantemente pelas águas do mar e lembrei da questão que a pergunta inicial da Ju me despertou. Tenho sido amigo dos meus amigos? 

Honestamente, me sinto um péssimo amigo. Pouco dado, pouco disponível, pouco aberto, pouco afetuoso e promovedor de afetos. Um introvertido calado, desprovido de adornos sociais. Mas, olhei para as pedras e percebi que cada uma é moldada de uma forma diferente pelo movimento constante das águas. Umas são planas, outras pontiagudas. Umas são lisas, outras são grosseiras.

Também é assim entre nós. As águas da vida, nossa genética, nossa biografia, nos moldam de formas diferentes. Somos amigos da forma que podemos ser. Somos amigos em nossas qualificações peculiares, com as quais podemos ser necessários em momentos específicos na vida do outro. Já, em outros momentos, outro amigo cairá bem melhor. Até porque amizade verdadeira respeita identidades diversas e se alimenta dessa diversidade para aprender com a diferença do amigo. Sem isso, amizade é narcisismo de se relacionar com aqueles que nos são apenas espelhos.

Jesus, no início de sua jornada, escolheu doze homens para andar com ele diariamente. Doze homens absurdamente diferentes. Gente simples e letrada, gente calma e raivosa. Homens introvertidos e extrovertidos, racionais e emocionais. O Mestre sabia que suas palavras percorreriam o planeta por meio da amizade inicial de doze homens comuns, porém, diferentes em sua forma de receber e propagar a mensagem. Por isso eles os escolheu tão diferentes. Porque eles se encaixavam como pedras. O que faltava a um, sobrava a outro e assim se completavam.

Somos diferentes em nossa forma de se relacionar, somos únicos e por isso cada um de nós é amigo como sabe ser, como consegue ser. O que importa é estar perto, não só fisicamente, mas em disposição. Apto para ser a pedra que se formou e dar o apoio que se pode dar, enquanto as águas da vida moldam nossa Amicita - termo latino que deu origem à palavra - amizade - a partir do termo amicus, que significa - amigo - aquele que é amigável, aquele que ama.


O meu mandamento é este:
amem-se uns aos outros como eu os amei. 
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.

João 15:12-13

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