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Degredado


Neste mês voltei a trabalhar em uma empresa na qual trabalhei quando garoto. Este retorno me trouxe um sentimento agridoce de gratidão e pesar. Gratidão, pela oportunidade de voltar a ser parte de um ministério pelo qual tenho tanto apreço. Pesar, por refletir que talvez eu não deveria ter saído dali para trilhar outros caminhos. O sentimento agridoce de um degredado que voltou. Não se trata de arrependimento, mas de algo mais sutil. Sobre não ter certeza se deve haver arrependimento, pois não sei, ao certo, se foram as minhas escolhas que mudaram meu caminho, ou se foram outras forças que me levaram para longe. É sobre não saber se o degredo foi forçado ou auto-imposto.

A história do Brasil é repleta de narrativas de degredados portugueses que foram forçados a viver neste novo mundo. Uma das histórias que me chamou atenção foi a de Afonso Ribeiro, que dizem ser o primeiro degredado do Brasil, forçado a viver aqui para aprender e registrar a realidade destas novas terras. Quando foi deixado pelas naus, Afonso Ribeiro tentou remar de volta para alto-mar, mas foi trazido pelas ondas, até a praia, onde foi bem recebido pelos índios. Mais tarde, de volta à sua terra, Afonso ficou conhecido pelos minuciosos registros de seu exílio. Dizem que ele foi degredado por ter assassinado um homem, porém, outros dizem que ele era inocente.

A Bíblia também é repleta de narrativas onde personagens e até nações inteiras foram exiladas. Em alguns casos, o degredo foi provocado pelo pecado, já em outros, o exílio fazia parte dos desígnios de Deus. Culpados, como os adoradores do Bezerro de Ouro, ou inocentes, como José rumo ao Egito, nenhum deles escapou da soberania de Deus. De qualquer forma, os relatos bíblicos nos mostram que, com culpa ou não, cada um destes personagens precisava ser degredado para ser transformado ou para ser usado como ferramenta nas mãos de Deus.

Hoje, posso olhar para trás, para alguns de meus exílios, e me culpar ou defender minha inocência. Posso lamentar alguns momentos ruins e até ponderar que poderia ter evitado, pois foram resultados de deslizes. Posso me entristecer ao assumir minha incapacidade de agir de forma correta em muitas circunstâncias. Também posso ponderar que outros degredos foram impostos por forças que estavam fora do meu controle. Porém, a despeito do que acho, a Palavra de Deus me mostra que não depende do que eu sou ou faço, mas daquilo que Deus é e tem efetuado em mim. Não depende de meus méritos, pois todo mérito é de Cristo Jesus que me aceitou como sou, e como como sou, me chamou. Neste ato, Dele, posso descansar crendo que cada trilha, boa ou ruim, foi em prol de uma transformação que se fez necessária, uma remodelagem que precisava ser feita neste simples vaso de barro que, pela misericórdia de Deus, guarda dentro de si a maravilhosa graça de Cristo Jesus, meu único Mestre e Salvador.



"No silêncio da minh'alma 
existe um lugar
Onde só você pode chegar
Pode tocar meu coração
Por onde quer que eu vá
É a Tua voz que me faz voltar

E esse doce som me lembra
Que agora já não sou mais meu
E esse doce som me lembra
Que agora posso descansar

Minha angústia aqui eu deixo
O meu pranto agora é riso
Eu quero me entregar...
Este doce som me lembra...

Posso descansar em Tuas mãos
Posso descansar..."

Compositor: Cris Batiston/ Fabiano Barbosa

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3 comentários :

  1. Lindo texto, Lucas. Interessante que, lendo seu último parágrafo, antes mesmo de visualizar a letra da música, lembrei da mesma! Cantarolei e pensei: será que ele conhece aquela música? Rs.. Parabéns, que Deus o abençoe e continue usando a sua vida e seus dons para o crescimento do Seu Reino.

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