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A chuva, a casa, o tênis e a baleia


Me pediram para pensar em algo, escrever algo, sobre o jogo "A Baleia Azul", mas na verdade eu quero falar sobre um tênis que me dei de presente. Antes disso, porém, gostaria de falar sobre ir pra escola (ou pro trabalho) em um dia chuvoso. Eu sei que nada parece ter relação, mas na minha cabeça caótica tudo está perfeitamente coeso (mentira).

Acordei, fiz e tomei meu diário café, antes de partir para o trabalho. Peguei o guarda-chuva porque o tempo estava fechado. Ao sentar no banco do coletivo, me lembrei de como gostava de ir pra escola em dias de chuva. Sempre detestei ir pra escola, mas por algum motivo que eu desconhecia, o dia cinza e chuvoso tornava esta tarefa menos insuportável. Para minha surpresa, descobri que meus filhos também têm a mesma sensação. Por isso, me esforcei para transformar esta sensação em linguagem, enquanto observava a água escorrer pelo vidro do ônibus. Não estou certo que é isso, mas me dei conta de que o dia nublado e escuro deixa tudo mais fechado, mais íntimo. Para introvertidos, como eu, é como se a escola se tornasse uma extensão da nossa casa, do nosso lugar de intimidade, de carinho e conforto. Deve ser por isso que a escola parecia menos hostil naqueles dias de chuva. Ela parecia ter algo em comum com a minha casa.

É impressionante como uma casa pode ser muito mais do que um edifício. Uma casa, um lar, é uma construção feita de afeto, intimidade, aconchego, alegria, fé, diversão, bronca, sermão, ajuda, cuidado, espera e toda uma infinidade de tijolos, vigas e ligas que edificam nossa personalidade, nossa capacidade de cuidar dos outros e de nós mesmos. Uma casa é feita de pai, mãe, vó, vô, tia, tio, irmão, irmã, padrasto, rotina, mobília, luz que entra pela janela, água que passa pelos canos e energia que percorre a fiação. Lar construído aqui dentro, no peito, a casa do afeto. Afeto que se traduz na relação com o próximo e com o mundo ao redor. Não canso de falar desta casa porque ela é a essência do que somos. É o que me tira da cama todo dia pra fazer café e cuidar da vida, dos meus filhos, da minha esposa, da minha casa, do meu peito.

Enquanto divagava, quase passei do ponto de ônibus. Dei o sinal e desci. A chuva ficou forte. Parei debaixo do toldo de uma loja de calçados. Meus sapatos e meias já estavam encharcados e seria incômodo trabalhar o dia todo daquele jeito. Então, lembrei da casa, não a de fora, mas a de dentro. Lembrei que há muitos anos estava protelando me presentear com um tênis. Pensei (na verdade senti) que seria um bom dia chuvoso para me presentear. Mas é só um tênis! Ora, é muito mais do que um tênis, é um gesto de cuidado, é afeto, é intimidade. Cheguei no trabalho, tirei os sapatos e meias molhadas, enxuguei os pés com toalhas de papel e vesti minhas meias e meus tênis novos. Por que? Porque eu trago a casa no peito, o lar que meus pais me ajudaram a construir aqui dentro, com carinho e afeto. Fui trabalhar para sustentar a casa, a de fora e a de dentro, a minha e da minha família. No final do dia, voltei pra casa pra ajudar na construção da casa deles.

Ops! Quase esqueci do jogo da baleia, mas é que a casa construída aqui no peito não deixa lugar pra essas baleias que vem e vão. A casa é quente, tem gente, tem conversa, tem porta-retratos com memórias de dias felizes que nos ajudam a passar pelos dias tristes. Tem diálogos com ouvidos atentos e bocas afetuosas. A casa, aqui, traz a escola e toda cidade pra dentro do peito em dias chuvosos e também protege das baleias lá fora. Precisamos ensinar os jovens a construir suas casas.

Com sabedoria se constrói a casa, e com discernimento se consolida.
Provérbios 24:3
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2 comentários :

  1. É isso mesmo, meu amigo! Saudade! Deus abençoe!

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  2. Gosto muito do que você escreve!Que o Senhor continue te usando como instrumento Dele em sua obra.

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