Meu irmão mais velho


Normalmente, meus textos possuem um período embrionário. Fico por dias ruminando aquele ensino ou reflexão, antes de sentar para escreve-los. Não foi o caso deste texto. Comecei a escrever do nada, talvez porque este tema me acompanhe há muitos anos, na verdade por toda minha vida. Hoje, é a chamada Sexta-feira Santa do calendário cristão e por isso senti vontade de registrar a forma como compreendo Jesus. Antes de começar, porém, me sinto forçado a dizer que minha compreensão não possui a pretensão de ser exemplar, nem correta de algum ponto de vista teológico. Desejo falar sobre a forma como formatei meu conhecimento e relacionamento com Jesus e me sinto à vontade para dizer que esta concepção particular pode exalar desentendimentos que são frutos de muitas limitações exegéticas. Por mim, tudo bem.

Preciso começar dizendo que não costumo falar com Jesus, em oração. Começo por aí, porque isso explica muito da minha compreensão sobre ele. Inclusive, por isso, já me senti muitas vezes um incrédulo diante de relatos de outras pessoas que me contam suas experiências dialogais com Jesus. Já tentei orar diretamente a ele, mas nestas poucas ocasiões lembrei de seu ensinamento, no qual ele diz que devemos orar ao Pai, em seu nome. Justamente por este ensino, dirijo minhas palavras sempre a Deus. Foi à partir deste ensinamento que entendi Jesus como um de nós, como um irmão. Quem tem irmãos sabe como é esta relação esquisita de amor, cumplicidade e também de tensão e competição. O irmão de sangue (no meu caso irmã, que eu amo muito) é nossa primeira experiência de relação interpessoal horizontal. O irmão está no mesmo nível, pelo menos deveria, e por isso precisamos lidar com esta tensão de ser diferentes, mesmo sob as mesmas circunstâncias. A maioria das brigas entre irmãos, por toda a vida, advém desta tensão entre igualdade e desigualdade na qual mostramos nossas garras e nossas auréolas.

Entretanto, na plenitude dos tempos, o Pai resolve colocar em nossa casa seu primogênito. Aquele irmão mais velho que é um exemplo de rapaz. Em tudo ele se destaca. Em tudo ele se mostra perfeito. Em tudo ele agrada o Pai de uma forma como nunca conseguiremos agradar. Ele é, com precisão, aquilo que deveríamos ser, mas invariavelmente não conseguimos ser. Em meio a esta situação, seria mais fácil se ele se tornasse orgulhoso de sua competência, pois neste caso poderíamos acusá-lo de prepotente e arrogante. Porém, ele também não cai nessa esperada armadilha. Em meio a ira do Pai com seus filhos, o filho perfeito se revela humilde, compreensivo, compassivo e até serviçal. O filho prodígio, então, resolve nos ajudar. Se inclina até seus irmãos vacilantes, nos trata, nos cura e nos atende em nosso complexos de inferioridade e superioridade. A ira do Pai aumenta e todos nós, filhos, sabemos que merecemos esta ira, menos aquele perfeitinho. Tudo está definido. Ele é orgulho do Papai. Nós somos o alvo da ira. Nada mais justo, o bonitão merecia ficar de boa. Porém, é justamente aí que o irmão quebra nosso coração ao meio. É aí que ele nos torna prisioneiros de seu amor. É aí que ele nos mostra o que é ser irmão, de fato. Ele recebe a ira do Pai por nós. Ele que sempre foi digno de todo elogio e de toda honra. Ele, que era alguém, de verdade.

Ele, se fez culpado.

Jesus é meu irmão mais velho. Ele é insuportavelmente perfeito. Eu sou insuportavelmente falível. Sou aquele irmão vacilante que vez ou outra dá trabalho ao Pai e ao irmão exemplar. Sou aquele que nada era, aquele que resvalou na lama e se tornou escravo do mal, mas por este imerecido irmão foi encontrado e reconciliado com o Pai.

Obrigado irmão.
De seu irmão e agora servo.
Por Jesus, transformai-vos!


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