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Depravação total | TULIP 1 de 5

tulip - depravação total
Neste ano, boa parte dos cristãos protestantes espalhados pelo mundo estão celebrando os 500 anos da reforma protestante. Como sou um deles e tenho o privilégio de estar vivendo minha curta existência neste momento histórico, pretendo escrever sobre este tema durante estes últimos cinco meses de 2017. 5 meses, 5 textos, sobre os 5 pontos do calvinismo, também conhecidos pelo acróstico TULIP.
Antes de mais nada, devo dizer que não farei isso como um profundo estudioso do assunto, pelo contrário, farei isso do ponto de vista do leigo, daquele que, sentado no banco da igreja, ouviu por anos a mensagem que vinha do púlpito e tentou coadunar isso com a prática da vida e neste processo somou aprendizado, dúvida, fé, esperança e amor. 

O primeiro ponto, o T da Tulip, é um dos pontos mais difíceis pra mim. Total depravationem português, depravação total é a base dos outros quatro pontos, pois explica a situação humana caída, apontada pelos textos bíblicos como entendimento da necessidade de um ato salvífico de Deus. Se não fosse por esta má notícia, a boa notícia em Cristo Jesus não seria necessária. Por este motivo, uma conversão sincera ao Cristo advém de um coração arrependido. Mas arrependido do que? De roubar a borracha do amiguinho na escola? De aceitar propina? De assistir pornografia? De magoar a mãe? De sonegar imposto? De mentir?
Sim e não! Na verdade, de uma só coisa que levou a tudo isso e muito mais.

Minha maior dificuldade com este primeiro ponto diz respeito à sua origem. A origem da queda humana é apresentada no livro de Gênesis, naquela narrativa entre Deus, Adão, Eva e a Serpente. Tenho dificuldade pois gostaria de ter mais informações sobre como era a vida antes deste trágico incidente. Não consigo imaginar como seria a vida em seu sentido mais amplo, natureza, relacionamentos, cultura e seus modos de vida. Já ouvi várias vezes que seria uma vida sem dor, sofrimento e morte, entretanto, se formos nos aprofundar nesta ideia, fica difícil imaginar uma vida onde dor, perda e sofrimento não estejam presentes, afinal, estas experiências negativas fazem parte do ciclo incansável da vida e inclusive parecem trazer equilíbrio natural à existência.

Além disso, também tenho dificuldade para entender como um ensino tão profundo da fé cristã tem sua origem em uma narrativa tão curta como esta do livro de Gênesis. Sou submisso à Palavra de Deus e por isso entendo que Ele revelou apenas aquilo que quis revelar, porém, sendo bem honesto, gostaria de mais informações sobre este ponto. Provavelmente, a própria situação de queda me impeça de entender uma circunstância onde o homem vivia em plena harmonia com o criador. Enfim, este é um dos muitos pontos bíblicos no qual eu apelo para o texto de Paulo aos Coríntios: "Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido." - 1 Coríntios 13:12

Além das minhas dificuldades com a origem da queda, também acredito que temos alguns problemas de linguagem com o título deste primeiro ponto - Depravação Total. Hoje, a palavra depravação possui uma forte entonação sexual e talvez por isso não expresse bem a amplitude deste primeiro ensino. Este título pode trazer a falsa ideia de que são pecadores apenas aqueles "sexualmente depravados" do ponto de vista de uma cultura específica. Não é simples assim. Não é apenas uma questão de moral. Ao meu ver o título que mais expressa este ponto, seria - Distanciamento Total. Se compararmos o próprio Deus a um ponto de luz em um local escuro, podemos comparar a depravação total como um ato voluntário humano de distanciamento desta luz, rumo à escuridão. Esta ação não se caracteriza apenas por um comportamento moral reprovável, como muitos simplistas gostam de dizer. Até porque, a própria ideia de moral está sujeita a transformações históricas e culturais constantes. Aquilo que é imoral em determinada cultura ou época, pode deixar de ser em outra época ou nunca ter sido em outra cultura.

Porém, o que caracteriza a queda humana é esta vontade constante de ignorar Aquele que traz sentido à nossa própria existência. Neste entendimento mais amplo, não só nossa maldade nos distancia da luz, como também os nossos atos mais sublimes, corretos e bondosos, continuarão sendo passos rumo à escuridão, quando estes ignoram Aquele que é o centro de tudo. Uma pessoa que vive uma vida correta, segundo a ideia atual e local do que é moral e ético, não está mais perto de Deus por isso. Aliás, este tipo de entendimento simplista sobre queda humana acaba por anular a necessidade do sacrifício de Cristo Jesus na cruz. O nosso distanciamento total do criador é um buraco tão extenso e profundo que nos impossibilita, por qualquer dispositivo humano, seja moral, emocional ou tecnológico de nos trazer de volta a Ele. Cada ato que tomamos, bom ou ruim, nos distancia cada vez mais de Deus e não há nada que possamos fazer.

No início deste texto, revelei minhas dificuldades em entender como seria a vida antes da queda, porém, posso dizer, com certeza, que não tenho dificuldade nenhuma em aceitar que estamos caídos, ao olhar para o mundo ao nosso redor, ao ler as notícias do dia, percebo que mesmo nossos esforços mais sublimes contra a desigualdade, a injustiça e a violência são ínfimos e insuficientes para nos tirar da dor e do sofrimento até mesmo da nossa espécie, que dirá de toda criação. Percebo que estamos caídos ao olhar para os políticos, os policiais, os meus amigos e parentes. Acima de tudo, percebo a queda ao olhar pra mim e perceber o quanto o meu amor é parcial e seletivo, o quanto sou individualista, egoísta e violento. Esta é a má notícia e você não escapa dela.


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4 comentários :

  1. Leandro Thomaz de Almeida29.8.17

    Vou deixar uma provocação do C.S. Lewis: "se o homem fosse totalmente depravado não saberia que é totalmente depravado". Pra pensar! Abraço.

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    1. Gostei da provocação!

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    2. Anônimo30.8.17

      A CSLewis eu diria, "Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados..." Ef 2.1ss e perguntaria, Quão morto pode um morto estar?

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  2. Anônimo30.8.17

    Obrigado pelo seu texto, Lucas Pedro! Fernando Arantes.

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