O Paradigma da Pureza



Vi esta expressão em um post do meu amigo e parceiro Jean Marcel que também me lançou o desafio de escrever sobre o tema. Desde então o tal do paradigma ficou perambulando em minha mente. Segundo o pai dos burros, paradigma é um modelo, uma referência que usamos para nos orientar. A expressão mais usada neste século tem sido "quebrar paradigmas". Nesta expressão a palavra paradigma é apresentada como algo negativo, algo que prende, que nos limita, como um muro de Berlim que precisa ser quebrado em prol da liberdade. Até porque, a maior parte destes paradigmas são construídos pela cultura na qual estamos inseridos, como limites sociais, erguidos por agentes externos, de fora para dentro.

Entretanto, o tal do paradigma da pureza diz respeito a um muro construído de dentro pra fora, por nosso ego, para nos proteger do que vem de fora. Dentro deste muro de pureza edificamos a ideia de que nossa forma de interpretar o mundo é a forma ideal. Cada tijolo desta muralha nos faz acreditar que o posicionamento que tomamos, seja político, social, religioso ou ideológico, é o correto, perfeito e puro.

Por que fazemos isso?

Fazemos isso pra nos proteger das dúvidas quanto a nossa identidade. Fazemos isso para evitar o confronto entre nossas convicções e as incertezas que há lá fora. Afinal, precisamos de uma quantidade razoável de definições e um nível mínimo de aceitação individual pra tomar decisões e, assim, arcar com as consequências das escolhas: o matrimônio ou não, a religião ou não, a profissão, o time, o grupo social e etc. O problema mesmo é quando erguemos este muro tão alto, a ponto de esquecermos que essa é apenas mais uma forma de encarar o mundo. Quando colocamos tantos adornos e afrescos neste muro, a ponto de acreditarmos que não há forma melhor de pensar. A ponto de acreditar piamente que não há posicionamento mais puro que o nosso.

De qualquer forma, acredito que seja impossível não criar este tipo de paradigma de dentro pra fora, pois precisamos dele para nortear a construção constante da nossa identidade. Entretanto, também acredito na ideia de que podemos substituir muros fechados por cercas vazadas, por meio das quais conseguimos observar e avaliar o mundo com alteridade, pelos olhos dos outros, permitindo que os posicionamentos e opiniões de fora se entrelacem aos nossos. Desta forma conseguiremos abandonar a ideia imatura de pureza, para abraçar a ideia constrangedora, mas realista, de que o ponto de vista do outro pode ser melhor que o nosso em muitos momentos e que o mesmo pode atravessar nossas cercas e se fazer presente aqui, dentro.

Ouse quebrar seu muro de pureza.
Ouse encontrar-se errado.
Ouse ver o vizinho pelos vão das cercas leves.
Ouse acreditar que bom mesmo, só há um.


"Quando Jesus ia saindo, um homem correu em sua direção, pôs-se de joelhos diante dele e lhe perguntou: "Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna? "
Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. - Marcos 10:17,18


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