Posso tudo naquele que me fortalece?



Há alguns dias, tive a oportunidade de assistir novamente o filme Pulp Fiction, do aclamado diretor Quentin Tarantino. Talvez não deveria, mas gosto muito dos filmes dele, com seu peculiar humor sarcástico, recheado de diálogos longos, em cenas intermináveis. Na primeira vez que assisti, eu não havia percebido a importância do texto bíblico de Ezequiel, usado pelo capanga, interpretado pelo grande Samuel L. Jackson. Apesar de todo no sense do filme, a trama se passa em torno da transformação deste violento capanga que por toda vida de crime havia repetido o texto bíblico sem entende-lo profundamente. Porém, em uma de suas missões, ele se dá conta de quem ele é no contexto daquele texto bíblico e, por isso, resolve converter sua jornada para outra direção. Interpretando corretamente o texto, ele percebe o óbvio, que ele não era um instrumento de justiça de Deus, muito pelo contrário, ele é o perverso que Deus promete eliminar.

Isso me lembrou a frase do apóstolo Paulo, em sua carta aos Filipenses: "Tudo posso naquele que me fortalece." É impressionante como esta frase tem sido usada em todo tipo de material cristão. Adesivos de carros, canecas, camisetas, posts e até como decoração de unhas. Essa frase, quando isolada de seu contexto, remete a um positivismo evangélico, um triunfalismo no qual nos tornamos poderosos e invencíveis para enfrentar os desafios desta vida. Para enfrentar os nossos desafios e realizar os nossos sonhos, planos e projetos pessoais, com a ajuda e proteção infinita de Deus.

Pouca gente, no entanto, se debruça sobre a carta de Paulo para compreender o contexto no qual ela está inserida. Ali, Paulo está no meio de um agradecimento à igreja de Filipo que havia lhe enviado suprimentos. Paulo estava preso, em Roma, por pregar o Evangelho de Cristo e, naquela situação humilhante, ele agradece aos Filipenses e abre um parênteses para ensinar a eles o segredo de viver contente em qualquer situação. Ele conta que aprendeu se adaptar a qualquer circunstância, sendo ela boa ou ruim, pois sua força vinha de Cristo. Ele não era um super-homem ou um ser protegido por um escudo de força divino. Ele era um servo de Cristo, sujeito a todo tipo de adversidade. O que ele disse aos Filipenses é que havia aprendido a passar por todo tipo de situações, positivas ou negativas, desde que estivesse com Deus, pois Sua presença era suficiente.

Além deste entendimento sobre o contexto, falta também a muitos usuários do jargão - Tudo posso naquele que me fortalece - o entendimento sobre a especificidade do Evangelho que significa Boas Novas. A especificidade do Evangelho é que ele é uma boa notícia a ser comunicada. Paulo, quando escreveu sua carta aos Filipenses, estava preso por cumprir a missão de todo cristão: Comunicar a boa notícia de Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. É, justamente, cumprindo esta missão que o apóstolo exala esta frase tão batida. Fico me perguntando, assim como o capanga do filme Pulp Fiction: Quem sou eu neste texto e contexto? Será que eu posso, como cristão, realmente me apropriar desta frase dentro do contexto de comunicação das boas novas de Cristo Jesus? Ou será que eu devo, assim como o personagem no final do filme, terminar este texto só dizendo: - Eu não cheguei lá, mas estou tentando?

Alegro-me grandemente no Senhor, porque finalmente vocês renovaram o seu interesse por mim. De fato, vocês já se interessavam, mas não tinham oportunidade para demonstrá-lo. Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece. Apesar disso, vocês fizeram bem em participar de minhas tribulações. - Filipenses 4.10-14


Comentários

  1. Parabéns pela boa reflexão, Lucas. Gostei.

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  2. Anônimo3.3.18

    Nem sabia que Pulp Fiction era sobre isso. Muito bacana. Vou ter que ver.

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