Identidade e Pertencimento

Pintura por Ford Madox Brown

“Princesa, rainha, entre muitas, escolhida, curada, formosa, por dentro e por fora, bonita, inteligente, sábia, paciente, humilde, submissa, mansa, obediente, respeitadora, encorajadora, perdoadora, pacificadora, fiel, honesta, bondosa e generosa, decidida, ousada, corajosa. Ora, jejua, mulher fervorosa, mulher virtuosa, maravilhosa. Queixo pra cima, princesa, rainha, senão a coroa cai.” - Ana Paula Valadão

A Ju me apresentou esta música enquanto eu lavava a louça da janta. Foi esta, então, a gota d’água que me levou a escrever esta reflexão. Nesta música a compositora elenca uma série de virtudes que parecem compor a identidade de uma mulher cristã ideal. Já no refrão, ela aconselha esta mulher a manter-se de queixo erguido para que sua coroa não caia. Durante os dias que antecederam meu encontro com esta canção evangélica, eu refletia de modo embrionário sobre aquilo que nos define como cristãos evangélicos brasileiros, hoje. Diante das notícias, das falsas notícias e de todos os posts e dos comentários displicentemente visualizados, eu me esforçava para tentar formular em minha mente a síntese da minha identidade cristã atual. A pergunta ecoava na mente: - O que nos define como cristãos?

Mas, por quê? Por que definir uma identidade é tão importante?

Descobri que por trás desta pergunta há um velado questionamento sobre pertencimento, pois é exatamente por isso que costumamos gastar energia para definir nossa identidade. A identidade imaginada tem como uma de suas funções nos inserir nos grupos sociais dos nossos pares e também nos retirar de outros grupos divergentes. A identidade, portanto, nos agrupa e nos reagrupa de modo recorrente. O problema ocorre quando boa parte deste grupo muda sua essência, deixando aos seus integrantes apenas duas escolhas: mudar ou se retirar. Neste momento há sempre aqueles que mudam com o grupo sem nenhum questionamento, porque primam pelo pertencimento. Há aqueles que rapidamente se retiram e também aqueles que ficam na tensão entre pertencer e se retirar.

Estou dentre estes que se encontram na tensão. Fico no grupo evangélico, apesar da permanente sensação de estranheza e do profundo sentimento de não pertencimento. Não aprecio boa parte dos posicionamentos deste grupo. Não abraço quase nenhuma opinião desta maioria e não consumo boa parte do que se produz neste meio. Me sinto quase sempre amordaçado e, nos piores momentos, me vejo como Pedro, negando minha identidade e pertencimento por três vezes, antes do galo cantar. Porém, nesta hora mais escura da noite, quando leio textos e comentários odiosos de amigos evangélicos nas redes sociais ou quando ouço uma música sobre a coroa da rainha e o queixo pra cima é que eu me lembro das palavras de Cristo sobre aquilo que nos define como cristãos, de fato:

"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros". - João 13:34,35

Segundo o próprio Mestre, o verdadeiro cristão não será conhecido por seu queixo pra cima, nem por sua orientação ideológica, nem por sua assepsia moral, mas simplesmente por amar ao próximo. O mais cativante é que Ele disse isso logo após lavar os pés de cada um de seus discípulos, para ensinar a eles e a nós o ângulo correto do queixo de um cristão que descobre sua identidade Nele e que, de fato, pertence a Ele.

Que Ele se levante e eu me curve.
Transformai-vos!
Identidade e Pertencimento Identidade e Pertencimento Reviewed by Transformai-vos on março 26, 2018 Rating: 5

10 comentários:

  1. Esse texto precisaria chegar até Ana Paula Valadão.... não acha?

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  2. Me admira tanta coerência numa reflexão como essa. Diversas vezes encontro em textos seus questionamentos com os quais me identifico e nessas diversas vezes suas reflexões e com conclusões me ajudam a esclarecê-las e refletir de forma ainda mais clara sobre. Gratidão 🌻 Sou tua fã!!!

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  3. Gosto da simplicidade e clareza com que expõe seus pensamentos. Do equilíbrio e bom senso que nos ajuda a refletir sobre tantos assuntos pertinentes a vida cristã. Continue compartilhando conosco seus pensamentos!

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  4. Por outro lado, vivemos um cristianismo que mata por Cristo, mas não morre por ele. A morte do eu precisa ser constante, afim que Ele nos revista dEle mesmo e assim possamos "encontrar o nosso real eu". Mas há algo na subcultura cristã que me espanta, e ai a Valadão, de uma forma muito mal feita, tenta dizer isso. Cristão não precisa andar com a cabeça pra baixo, se dizendo inferior ou coisa do tipo. Andemos com a cabeça pra cima, com humildade (com João 13:34,35) e sem o complexo de inferioridade ou de uma autocomiseração. Somos filhos do Deus da Guerra, isso não quer dizer que precisamos guerrear, afinal ele já nos deu a vitória na Cruz. Temos um Deus que é Amor, e não precisamos dizer que não somos amados com perfeição. Não há desculpas para ser cabisbaixo e também não há desculpas para ter a cabeça erguida através do orgulho e arrogância. Somos filhos, irmãos e servos de Cristo. O próprio Rei foi coroado com uma coroa de espinhos, chorou pela morte de um amigo e nos ensinou de como ser um humano. Então se somos reis e rainhas (a própria bíblia diz isso), que sejamos como Jesus Cristo foi.

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    1. Gostei do contraponto, Tiago!
      Entretanto, deixo aqui dois textos que revelam como Deus aprecia mais a nossa humildade e contrição:

      'Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás. ' - Salmos 51:17
      https://my.bible.com/bible/129/PSA.51.17

      'Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. ' - Filipenses 2:3-4
      https://my.bible.com/bible/129/PHP.2.3-4

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