O evangélico, o calvinista e a harpa eólica

Por Lucas Pedro Transformai-vos - outubro 31, 2018


Exemplo de Harpa Eólica
Eu já estava enrolando para ler o tal do Abraham Kuyper, há anos. Em conversas sobre fé, vários amigos já haviam me recomendado a leitura. É legal esse negócio de ouvir alguém te dizer: - Você precisa ler esse autor! - pois na melhor das hipóteses, significa que este amigo percebeu no seu discurso alguma semelhança com o autor. Na pior das hipóteses, significa que seu amigo está falando educadamente que você precisa da ajuda do tal autor para reparar alguns erros no seu pensamento. De qualquer forma, eu resolvi começar a leitura do político, jornalista, estadista e teólogo holandês Kuyper, pelo seu livro mais conhecido, intitulado Calvinismo. Uma obra densa, mas gostosa de ler, pois é fruto da série de "Palestras Stone" que ele proferiu em 1898, nos Estados Unidos. Kuyper foi primeiro ministro da Holanda e por este engajamento político seus textos e seu pensamento são tão importantes hoje, num momento onde o cristão brasileiro resolveu se politizar a qualquer custo.

Assim como me recomendaram a leitura, eu li e também a recomendo, principalmente aos meus amigos cristãos reformados, pois Kuyper consegue manter uma coerência cristã que está em falta nos nossos dias, quanto a aplicação dos valores cristãos na sociedade, sem cercear liberdades. Ele se esforça para mostrar que precisamos, sim, ser luzeiros neste mundo, mas mantendo as esferas da sociedade livres para atuar e exercer sua autonomia. Em vários momentos ele defende o Estado laico e faz questão de dizer que este conceito é um dos principais frutos do Calvinismo para a história moderna. Ele consegue fazer isso sem abster os cristãos do engajamento em todas as áreas da vida; na política, na igreja, na arte e etc. Em resumo, ele apresenta o Calvinismo como uma cosmovisão cristã coerente e relevante em nosso mundo.

Devo confessar que ao terminar a leitura, me senti mais calvinista e bem menos evangélico. Por não concordar com alguns caminhos que meus irmãos evangélicos tem tomado no nosso país, tenho sentido um forte sentimento de despertencimento que em vários momentos já me tentou a deixar a igreja. Porém, este livro me fez entender, inclusive, que podemos tomar caminhos errados, mas que devemos assumir, criticar e corrigir rotas, pois somos falhos e totalmente dependentes da orientação de Deus. Para ilustrar essa capacidade de autocrítica, no final do livro o autor tece uma crítica importante à fé cristã calvinista, sobre o fato de nós sermos bons na interpretação das Sagradas Letras, mas fracos na busca pelo Espírito:

"Deus criou a mão, a cabeça e o coração; a mão para a ação, a cabeça para o mundo, o coração para o misticismo. Rei na ação, profeta na confissão e sacerdote no coração, o homem deve permanecer neste triplo ofício diante de Deus, e um Cristianismo que negligencia o elemento místico cresce frígido e congela-se. Portanto, devemos nos considerar felizes quando uma atmosfera mística nos envolve, fazendo-nos respirar o refrescante ar perfumado da primavera. Através dela a vida torna-se mais verdadeira, mais profunda e mais rica."
[...]
"... vocês recordam da Harpa Eólica, a qual os homens estavam acostumados a colocar fora de sua casamata, a qual a brisa podia fazê-la produzir música. Até o vento soprar, a harpa permanecia em silêncio, ao passo que, mais uma vez, ainda que o vento começasse, se a harpa não se encontrasse em prontidão, o sussurro da brisa podia ser ouvido, mas nem uma simples nota da música celeste deleitaria o ouvido. Agora, deixemos o Calvinismo ser nada mais do que esta Harpa Eólica, - absolutamente impotente como ele está, sem o Espírito vivificante de Deus – ainda sentimos ser nosso dever, dado por Deus, conservar nossa harpa, suas cordas afinadas corretamente, pronta na janela do Santo Deus de Sião, esperando o sopro do Espírito."
Abraham Kuyper

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2 comentários

  1. Muito bom, meu velho! Eis aí sua resposta (pelos menos em parte) - para que serve a Graça Especial. Que Deus o mantenha de pé sempre!

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    1. Verdade Paulinho!
      Escrevi esse texto antes de refletir sobre a graça comum.

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