Como ser muito feliz, segundo Jesus

Por Lucas Pedro Transformai-vos - novembro 01, 2018




Jesus inicia o sermão do monte com as bem-aventuranças. Existem várias maneiras erradas de entender esta parte do sermão. Uma delas é entender que Jesus está listando pessoas com algumas características naturais de sua índole que as levam a ser consequentemente muito felizes. Como gosta de dizer o autor Martin Lloyd-Jones: Não e não. As bem-aventuranças, na verdade, resumem a configuração da mente e do coração de cada crente e cada uma delas mostra uma faceta ideal do estado de espírito daquela pessoa que foi alcançada pela graça de Deus. 
Para entendermos melhor, vamos usar a primeira bem-aventurança como exemplo:



"Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus."
Nossa tendência ao ler este verso é entender que as pessoas naturalmente simples e humildes, sem altivez de espírito, são os afortunados que Cristo selecionou para viver no Reino de Deus. Esta é uma interpretação bem superficial e "meritocrática", pois o que Cristo está apresentando é uma das características que se espera de toda pessoa nascida de novo, pela água e pelo Espírito Santo. Todo crente, idealmente, deve buscar na presença de Deus, abandonar sua altivez, sua prepotência, sua arrogância e, então, diminuir seu espírito, pelo entendimento óbvio de como ele era imerecedor da graça de Deus, mas que apesar disso, foi perdoado e redimido. Em resumo, ser pobre de espírito, diminuir-se para que Cristo seja exaltado, é dever de todo cristão e mais ainda, é uma tarefa que só se torna possível com a ajuda do Espírito de Deus atuando em nós, seus filhos.


"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados."
Vivemos numa época onde ser feliz é o objetivo supremo. Inclusive, muitas igrejas distorcem o Evangelho para mostrar aos seus membros que a realização pessoal faz parte da vida cristã. Diante desta realidade, nos deparamos com esta fala de Jesus: Sejam muito felizes aqueles que choram.
Serão muito felizes aqueles que choram porque foram abandonados ou injustiçados? Serão muito felizes aqueles que passaram por dores físicas e emocionais? Aqueles que tiveram uma vida dura?
Evidente que não. Se fosse assim, Jesus estaria dizendo que os sofrimentos nesta vida possuem um poder expiatório sobre nossos pecados, mas a verdade é que eles não tem. Os sofrimentos nesta vida não redimem nossa alma.
O que Jesus está dizendo é que serão consolados aqueles que foram alcançados pela graça de Deus. Aqueles que, pelo novo nascimento, se lamentam com um espírito humilde, pelos seus próprios pecados. Aqueles que entenderam que todos os seus caminhos estavam errados pois ignoravam a vontade de Deus.
Mais ainda, aqueles que choram por ver o mundo afastado de Deus, perdido em suas ilusões de poder e felicidade vazia. Estes serão consolados, pois compreenderam que a verdadeira tristeza não é estar sem saúde, dinheiro ou amigos. A verdadeira tristeza é viver contrário à vontade de Deus e sem a presença do Espírito Santo. O cristão chora ao se ver tão propenso ao erro, ao ver seus amigos e conhecidos inclinados ao erro, ao ver todos os poderes e autoridades deste mundo tão pendidos à corrupção.
Porém, o cristão é consolado pelo Espírito ao percebe-lo transformando seu coração e permitindo que ele seja sal e luz neste mundo.


"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." 
Lendo de um ponto de vista cético e secular, esta bem-aventurança tem um tom de piada. Como pode ser possível que pessoas mansas se tornem os herdeiros desta terra. Os líderes e autoridades desta terra são, em sua maioria, pessoas enérgicas, imponentes e cheias de brio. Pessoas que tomam a liderança são, normalmente, pessoas que levantam sua voz e impõem sua autoridade sobre outras. De que forma, então, pessoas mansas se tornarão herdeiras da terra?
Mais uma vez somos tentados a ver as bem-aventuranças como algo meritocrático. Nos lembramos de pessoas, amigos e conhecidos que são naturalmente calmos e achamos que Jesus está prometendo algo para elas, que possuem esta qualidade natural de ser manso no seu modo de agir e falar. Mais uma vez estamos enganados nesta interpretação.
Os mansos, estes mansos, descritos por Jesus como futuros herdeiros da terra, são aqueles que por serem alcançados pela graça de Deus, tornaram-se humildes de espírito. São aqueles que choraram e se lamentaram por seus pecados e pelos pecados de sua geração. São aqueles que acalmaram sua alma atribulada nas águas do batismo e na santa presença do Espírito Santo que habita em seu interior. São aqueles que eram nervosos como Pedro e arrogantes como Saulo, mas foram quebrantados pela ação de Deus em suas vidas.
Estes mansos, pela graça de Deus, serão os herdeiros eternos desta terra. Mas não serão os líderes do Brasil, do continente e deste mundo caído. Não e não. Aqui eles serão mansos e humildes de espírito. Eles serão herdeiros na nova terra e no novo céu restaurados por Deus na consumação dos séculos, pois o Reino dele não é deste mundo.


"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados."
Difícil resumir em apenas três parágrafos esta bem-aventurança a qual o autor Martyn Lloyd Jones dedicou dois capítulos de seu livro. Pra ser bem sincero, só lendo. Porém, de modo geral, o autor faz questão de evidenciar que interpretamos errado esta bem-aventurança como sendo o anelo daquela pessoa que é justa e que, por ser justa, anela ver um mundo, um estado, uma sociedade onde reina a justiça absoluta. Mais uma vez, ele aponta que este é um entendimento simplista e pouco coerente com o ensino completo de Cristo.
O bem-aventurado que tem fome e sede de justiça é aquele humilde e manso de espírito que chora por ver-se tão injusto diante daquele único justo que é Cristo Jesus. Esta é, portanto, a primeira bem-aventurança na qual o sujeito deixa de olhar apenas para si mesmo e passa a olhar para Deus e à partir deste ponto de vista ele percebe o quanto é impossível saciar-se de justiça sem a presença de Deus em sua vida, pois como diz a Palavra: "Não há um justo, nenhum sequer." O autor compara o sujeito desta bem-aventurança com o cego Bartimeu que, consciente de sua incapacidade de curar-se e sabendo que ninguém à sua volta seria capaz de curar-lhe, se posiciona ali na beira da estrada até perceber que o único justo capaz de curá-lo se aproxima. Então, ele pula no meio de estrada gritando: Filho de Davi, tem misericórdia de mim. Este sim, é o bem-aventurado que tem fome e sede de justiça
Para finalizar, devemos ter claro em nossa mente que se alguém se sente justo a ponto de querer julgar o mundo, o estado e a sua nação, este alguém ainda não foi impactado pela presença do único Justo que andou neste mundo, Cristo Jesus. Mas aquele que olha pra si mesmo e nenhuma justiça encontra e, em seguida, olha para Cristo, para sua justiça, e sentiu fome e sede desta integridade, este sim, será farto.


"Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia."
As bem-aventuranças descrevem o desenvolvimento do cristão. Aquele que tem fome e sede de justiça e só a encontrou em Cristo Jesus, agora entende que a única maneira de lidar com seus semelhantes é por meio da misericórdia, pois todos nós erramos e agimos de modo perverso uns com os outros. Todo aquele que foi alcançado pela graça de Deus e sabe que Cristo sofreu em seu lugar, entende a profundidade de viver de modo misericordioso com o seu próximo.
Cabe ressaltar que ser misericordioso não é ser complacente com o pecado. O misericordioso relatado por Jesus é, pelo contrário, aquela pessoa que tem consciência completa de seus pecados e dos pecados daqueles que estão ao seu redor. Pela presença do Espírito Santo em sua vida essa pessoa não se agrada do erro e do mal, mas por entender nossas limitações, age com misericórdia, perdoando aqueles que lhe fazem mal. Perdoar se torna rotina.
É importante dizer que o misericordioso não perdoa para alcançar misericórdia. Ele perdoa porque já alcançou perdão e tem total ciência disso. Além disso, ele perdoa e age com misericórdia porque percebe que mesmo após ter sido alcançado pela graça, ainda transgride a vontade de Deus e ainda precisa da misericórdia Dele para viver. Perdoar e ser perdoado se tornam rotinas.
Termino com algumas perguntas levantadas pelo autor, neste capítulo: Você é misericordioso? Você sente compaixão por aqueles que se iludem com as coisas deste mundo? Você se entristece pelo pecador que o tem ofendido?



"Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus."
Deus revela ao profeta Jeremias uma palavra dura sobre a realidade do nosso coração. Ele é enganoso e mais perverso do que tudo. É bom deixar claro que o uso do termo coração na Bíblia não diz respeito apenas ao nosso lado emocional. Na Bíblia a palavra coração é usada para descrever o centro do nosso ser, nossa essência, quem somos. Isso envolve nossas emoções e também nossa racionalidade. Sendo assim, o que Deus diz em Jeremias é que há algo de errado com o núcleo do nosso ser. "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração..." - Jeremias 17:9,10a
Esta bem-aventurança, então, deve ser entendida a partir das anteriores. Muito feliz será aquele que percorrer toda essa jornada de transformação, pois ele estará ciente do engano presente em seu coração e buscará na presença do Espírito alcançar um coração limpo. Sem dúvida, isso será algo progressivo que perdurará por toda vida do cristão, como uma longa caminhada.
O cristão verá a Deus! Não verá ele nesta vida, porém, a cada passo desta caminhada, a cada vitória do Espírito Santo sobre o mal que reside em seu coração, a imagem futura de Deus se tornará mais focada, mais nítida. Cada mancha de egoísmo, de vaidade, de cólera, retirada do coração do crente, o leva a uma visão mais clara de seu criador e Senhor. E, enfim, em um nova terra, com um novo corpo, o veremos face-a-face.


"Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus."
Atualmente, quando falamos sobre pacificação, imediatamente movemos nossas mentes para as complexas questões políticas e sociais do nosso país e de todo mundo. Neste assunto complexo, nos dividimos em pelo menos dois grupos. De um lado aqueles que defendem a pacificação a qualquer custo e de outro aqueles que consideram isso uma complacência com o mal. O assunto se torna politizado, levando à discórdia.
Erramos feio quando pensamos que é sobre isso que Cristo está falando. Não, ele não está falando sobre políticas públicas e relações internacionais. Cristo continua discorrendo sobre o coração do homem, onde residem as nascentes de todas as guerras que o mundo já travou e travará. Muito feliz é aquele que após iniciar o processo de limpeza do seu coração, começa a perceber que cada pedaço de sua alma está deixando de lutar. Cada pedaço egoísta e mesquinho de sua mente está pedindo trégua para o Espírito Santo que agora domina aquele mundo interior.
O autor Martyn Lloyd Jones reserva dois versos bíblicos sobre este tema que resumem esta discussão. O primeiro em Efésios 2.14-15: "'Porque Cristo é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz.". É desta pacificação que o cristão participa. A pacificação que inicia no coração e dali se estende para medidas externas de promoção da paz. Como o cristão faz isso? Seguindo o modelo de Cristo Jesus que: "não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo". Filipenses 2. 6-7. Em outras palavras, o cristão liquida o seu próprio "eu" e começa a seguir a Cristo. Então, ele encontra a paz e trabalha para que todos à sua volta também a desfrutem. Este cristão será chamado Filho de Deus.


"Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus."
Chegamos à última das bem-aventuranças. Nela Jesus declara uma espécie de consequência natural do processo de transformação do cristão que percorre o caminho das bem-aventuranças. Perseguição! A lógica de Cristo é simples e direta, se perseguiram o mestre, perseguirão os seguidores. Paradoxalmente, a perseguição é um sinal de que estamos no caminho certo, trilhando as pegadas do Mestre.
Como de costume, Martyn Lloyd Jones começa explicando o que está bem-aventurança não é. O cristão não deve usar esta bem-aventurança como consolo no momento em que estiver sendo perseguido por ter sido tolo ou imprudente em seu proceder. O cristão também não deve usá-la como consolo quando estiverem sendo fanáticos e por isso estiverem causando terror às pessoas ao seu redor. O cristão também não deve usá-la quando estiver sendo perseguido por defender uma causa social ou política qualquer no qual ele se envolveu por vontade própria. Mas quando, então, ela será válida? Simples! Quando o cristão for perseguido por estar sendo parecido com Cristo. Paulo resume esta ideia em sua carta à Timóteo: "Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo serão perseguidos." - II Timóteo 3.12. O crente viverá esta bem-aventurança quando estiver vivendo em Cristo e para a glória de Cristo.
Mas quem o perseguirá? A história já nos mostrou que os cristãos foram perseguidos por incrédulos que desejavam extinguir a mensagem de Cristo do mundo e também pela própria igreja quando ela misturou perniciosamente sua missão com outros interesses. Por exemplo, sempre que a igreja deixou de buscar só a Cristo e passou a buscar o poder, ela acabou perseguindo cristãos que se negaram a fazer isso. Estes cristãos que se mantiveram firmes em Cristo, foram humilhados, torturados e mortos. Porém, a promessa de Cristo foi cumprida: Deles é o Reino dos céus!


Marty Lloyd Jones desenha uma metáfora muito interessante para resumir as bem-aventuranças em um processo de transformação do cristão. Segundo essa metáfora, escalamos o monte da transformação. Na subida passamos por um processo mais interno, de reconhecimento e rendição. Na descida partimos para as consequências externas do convívio com o Espírito Santo. Além disso, o autor ainda traça paralelos importantes entre as bem-aventuranças da subida e as da descida, mostrando que cada umas delas possuem uma interdependência vital. Os humildes de espírito serão misericordiosos, os mansos serão pacificadores, os que choram serão limpos de coração e os que tem fome e sede de justiça serão perseguidos. Tudo isso pra deixar claro o óbvio: Jesus não jogava palavras ao vento como costumamos fazer. Porque assim como o Pai, sua palavra é viva e eficaz.

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3 comentários

  1. Você sintetizou de forma muito clara, didática e fiel aa Palavra as bem-aventuranças. Quero estudar em casa com a família ❤️

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    1. Obrigado! Feliz por poder ajudar vc e sua família.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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