O Rei Alfredo, Uhtred e a graça comum

Por Lucas Pedro Transformai-vos - dezembro 02, 2018


Terminei a terceira temporada da série The Last Kingdom na mesma época em que estudava e refletia um pouco sobre a tal da graça comum, proposta pelo teólogo Abraham Kuyper, no século XIX. Nas três temporadas desta série, o personagem principal, Uhtred, convive com Alfredo, o Rei de Wessex. Uhtred é um pagão que construiu sua fé na mitologia nórdica. O Rei Alfredo é um cristão devoto. Porém, ambos passam a trabalhar juntos, planejando batalhas e guerreando em prol da visão de Alfredo de construir um grande reino, chamado Inglaterra.

Duas coisas me chamam atenção nesta narrativa. A primeira é que Uhtred, apesar de ser Viking, sente uma forte admiração pelos valores cristãos de Alfredo e também por sua devoção a Cristo. Além disso, ele percebe que a ideia de nação almejada pelo Rei é algo muito mais nobre do que os ideais de vida do povo Viking, que baseia sua honra apenas na guerra e na pilhagem dos seus inimigos. A segunda é que o Rei Alfredo admira a inteligência e a perspicácia de Uhtred e reluta em aceitar que Deus esteja usando um pagão, como instrumento de seu poder. Apesar do personagem de Uhtred ser fictício, é bem provável que alguns vikings pagãos tenham participado do processo de construção daquele reino que significou um grande avanço histórico e social naquele período.

Esta narrativa se encaixa como um perfeito exemplo na teoria da Graça comum, proposta por Abraham Kuyper. Em sua teoria, ele dividiu a Graça de Deus em duas manifestações: A graça comum e a graça especial, também chamada de salvadora. A graça especial compreende toda a iniciativa de Deus para salvar os crentes, por meio de seu filho. Já a graça comum, por sua vez, é concedida a toda humanidade. Esta graça é o que permite ao homem desfrutar das bençãos naturais da vida. O Sol, a chuva, o alimento e tudo mais que está ao alcance de crentes e descrentes. Mais do que isso, ela explica porque o ser humano, apesar de corrompido, ainda manifesta amor e solidariedade. Ela explica porque um homem ateu pode empenhar toda sua vida em criar, por exemplo, uma vacina que impede milhões de pessoas de morrer. Ela explica porque personagens como Uhtred, apesar de pagãos, podem sonhar e trabalhar por um futuro melhor para as próximas gerações.

A ideia da graça comum é benéfica por muitos motivos, mas gostaria de citar apenas três que estimo muito. O primeiro é que ela desfaz a barricada de guerrilha que muitas vezes é criada entre crentes e descrentes, pois entendemos que apesar de termos crenças diferentes, podemos trabalhar juntos para o bem comum. A segunda é que encontramos na graça comum mais um grande motivo para louvar e engrandecer a Deus por cada manifestação ordinária de seu poder e amor. Louvamos por uma pequena planta que germina, por uma criança que é curada por um novo remédio, por uma mulher que volta a sorrir depois de um tratamento contra a depressão e por aí vai. A terceira é que podemos, como cristãos, usar estas manifestações da graça de Deus para mostrar aos ainda descrentes, o quanto Ele é poderoso e amoroso. Podemos nos amorizar com os incrédulos, entendendo que a graça também os alcança a cada manhã e a cada entardecer e a partir disso, podemos comunicar da Graça Especial de Deus ao entregar seu Filho, Cristo Jesus.

O Rei Alfredo entendeu isso depois de muita relutância e infelizmente também tem sido assim com muitos cristãos, atualmente. Mas, que a Maravilhosa Graça de Deus nos envolva. A Comum e a Especial.

Deixo aqui um verso de um dos poetas que mais admiro. Talvez, um dos meus descrentes preferidos. Não posso afirmar que ele foi alcançado pela graça especial, mas posso dizer que ele entendia tudo da graça comum. Com vocês, Fernando Pessoa:

Pensar em Deus é desobedecer a Deus, 
Porque Deus quis que o não conhecêssemos, 
Por isso se nos não mostrou... 
Sejamos simples e calmos, 
Como os regatos e as árvores, 
E Deus amar-nos-á fazendo de nós 
Belos como as árvores e os regatos, 
E dar-nos-á verdor na sua primavera, 
E um rio aonde ir ter quando acabemos! ... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VI" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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