Sobre administrar desesperanças

Por Transformai-vos - maio 12, 2019



O mês de abril não foi fácil pra mim. Um misto de problemas físicos, emocionais e financeiros resolveu aterrissar por aqui. Como todo ser introspectivo, busquei auxílio na solidão dos livros, nas caminhadas e nas orações. Conheci a filosofia prática dos estóicos, nas palavras de Sêneca, e encontrei o choro escondido enquanto lia as palavras sábias de Tim Keller em seu pequeno livro, Ego Transformado. O choro que estava soterrado, coberto pelas responsabilidades diárias, mensais e anuais da vida objetiva. O encontrei porque estava avolumado pelas desilusões internas e externas. Pelas cobranças pessoais e pelos processos de culpa. O choro de quem não aguentava mais fazer mal a si mesmo.

Então, precisei fazer o certo que estava evitando. Desabafei com minha esposa e com meus amigos mais chegados. Uma destas conversas foi em um ótimo reencontro com minha velha amiga e irmã em Cristo, Silvia Octaviano, que me disse uma frase de suma importância naquele momento: - Precisamos aprender a administrar desesperanças, disse ela com sua típica ironia trágica. Aquela frase entrou com uma chave na fechadura que me impedia de acessar qualquer saída daquele lugar de angústia.

Eu sabia que era isso que eu precisava, porém, como se administra desesperanças?

Foi aí que a sabedoria dos estoicos me ajudou:
Liste suas desilusões! Liste seus medos e não seus sonhos, dizia Sêneca. Apure cuidadosamente tudo aquilo que te causa pavor e tristeza. Traga à tona. Nomeie e enumere, pois não há nada pior do que um medo infundado, se pé nem cabeça, solto como um boato. Encare tudo aquilo que você queria ter sido e não foi. Tudo aquilo que deveria ter feito e não fez. Tudo aquilo que esperou da vida, dos céus, e não se concretizou. Diga! Aponte. Mostre. Levante os tapetes onde escondeu sujeiras e mentiu sorrisos. Apure também os medos do porvir. A esperança que você rejeita por medo de fracassar de novo. 

Após este trabalho de apuração e com tudo isso diante de mim, recorri às palavras de Tim Keller em sua reflexão na carta aos Coríntios: “Como Paulo, podemos dizer: Eu não me importo com o que você acha de mim. Eu também não me importo com o que eu acho de mim. Eu só me importo com o que Deus pensa de mim. E Ele me disse que sou seu amado."

Munido disso, percebi que o próximo passo precisava ser de depuração:
Jogue fora aquilo que você não deve e não consegue mais levar. Mas não só as tristezas e desilusões, mas também as expectativas e as ilusões. Mas não julgue essas coisas e as condene como se fosse um impecável juiz. Pelo contrário, depure seu Ego também, jogue fora o orgulho que não cabe mais, com suas poses e imposições. Se depure! Diminua. Deixe a voz do julgamento para aquele que é santo e perfeito. No lidar, no pensar, no sentir e no crer, leve apenas aquilo que sobreviveu à depuração. Somente o genuíno.

Esta tem sido minha rotina interior nas últimas semanas.
Administrar desesperanças. Apurando-as. Depurando-as.

Em Cristo, transformai-vos.



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