Do primeiro andar


Outro dia, ouvia a mensagem de um pastor renomado sobre o cristão e a ansiedade. Ouço sobre este tema há décadas. O clássico "Não andeis ansiosos..." proferido por Jesus no sermão do monte é repetido incansavelmente nas igrejas e deve ser repetido mesmo. Porém, depois de tantos anos na igreja, sinto um forte desejo de conversar sobre os questionamentos e desdobramentos que minha mente faz, toda vez que voltamos a este assunto. Aquelas perguntas infantis que deixamos de fazer quando crescemos, por considerarmos inconvenientes.

Gostaria de usar duas experiências recentes para tentar expor aquilo que chamo de conversas do primeiro andar. A primeira foi a experiência do meu filho caçula ter que voltar para a mesa cirúrgica para retirar duas hastes do fêmur, resultado de uma fratura que ele sofreu em 2016. Lá fomos nós para o hospital! Acompanhei ele até ao centro cirúrgico e voltei para o quarto. A ansiedade era grande, pois a médica havia me preparado para a probabilidade do fêmur fraturar novamente, durante o esforço de retirada das hastes. Orei várias vezes e pedi as orações de vários amigos, mas a ansiedade continuava ali. Alguém do segundo andar me diria: - Poxa, mas você não confia em Deus? Então, relaxe! Deixe de ser ansioso.

- Sim! Eu confio em Deus, mas estou ansioso porque EU NÃO SEI se pode ser da vontade de Dele que o fêmur do meu filho frature de novo. É por isso que estou ansioso. Porque EU NÃO SEI. Você sabe? Alguém sabe o futuro? Não!

Essa pessoa poderia responder: - O que sabemos, pela Palavra de Deus é que TODAS AS COISAS cooperam para o bem daqueles que o amam.

- EU SEI! Porém, daqui do primeiro andar, posso ser honesto e dizer que EU NÃO QUERO que o fêmur precise quebrar de novo para as coisas cooperarem. Eu sei, você que é mais comportado que eu,  deve estar me achando um herege por dizer essas coisas, mas é exatamente isso que questionamos daqui do primeiro andar. Admiro quem não faz estes questionamentos, mas o fato é que eu os faço e faço sempre. Creio, de todo entendimento, na soberania de Deus sobre todas as forças e casualidades da vida e do cosmos. Não estou duvidando de seu poder, mas isso não muda a realidade de que EU NÃO SEI o que será do amanhã. Como diz o poeta: "Responda quem puder!"

EU NÃO SEI! Essa foi a frase que ouvi repetidas vezes de um colega do trabalho que enfrentou um câncer há alguns meses e que agora ficou sabendo que a doença voltou e que terá que passar por mais cirurgias e quimioterapias. Ele confessou sua fé na soberania de Deus, dizendo: A minha vida está nas mãos de Deus. Foi Ele que sempre guiou minha vida e continuará guiando, mas a verdade é que EU NÃO SEI o que será de mim.

Você aí do segundo andar, preciso te perguntar se este meu amigo gostaria de estar enfrentando essa doença novamente? Preciso perguntar se é fácil pra ele entender que de alguma forma isso coopera para o bem dele e de sua esposa, de seus filhos e de seus pais? Não, daqui do primeiro andar não fazemos essas perguntas. Daqui, nós pedimos que Deus esteja com ele, com seus filhos, sua esposa e seus pais. Daqui, nós indagamos Deus, sim. Mas não numa atitude de revolta, mas com um sincero desejo de se aproximar Dele. Com um profundo desejo de ver a ansiedade se dissipar, mesmo em meio ao desentendimento do que está acontecendo e do que virá a seguir. Daqui, nós repetimos como meu amigo: EU NÃO SEI, mas eu te entrego. Te entrego minha ignorância, meu lamento, minha frustração e todos os questionamentos sem resposta que me acompanham diariamente. Entrego a ti minha ansiedade por simplesmente não saber.

Sinceramente, eu desejo mais mensagens e conversas cristãs, daqui, do primeiro andar.


Segue a letra de uma música do primeiro andar:

Desça das estrelas, mostre suas cicatrizes humanas
Diga-me como é acreditar
Bem, eu não tenho respostas para desgostos ou cânceres
Mas um Salvador que os sofre comigo
Desça da sua montanha, do seu apartamento
E me fale do Deus que você sabe que sangra
O que dizer à minha filha quando ela faz tantas perguntas?
E eu falho em preencher seu peso com paz
Quando não tenho respostas para lesões nos joelhos ou câncer
Mas um Salvador que os sofre comigo
Afrodite não choraria, nem Zeus sofreria pelos fracos
Mas você veio para ficar dentro da minha dor?
E todas as coisas pelas quais eu implorei, eternidade e sempre
Estão escondidos comigo aqui embaixo da chuva
Então devo plantar sequóias e me deleitar no solo
De uma colheita que eu sei que nunca vou viver para colher?
Então semeie meu corpo ao meu Criador, e meu coração ao meu salvador
E me espalhe pela estrada, pelas pedras e pelas ervas daninhas
Espalhe-me na estrada  (John Mark McMillan)


Ouça:


Do primeiro andar Do primeiro andar Reviewed by Transformai-vos on outubro 28, 2019 Rating: 5

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